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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Breve estudo sobre marcas de interação relutante

Dados coletados a partir de diálogos entre os mesmos falantes, em dias, locais e horários aleatórios, para possível estudo sociolinguístico.
As iniciais foram trocadas para preservar a identidade dos falantes.

(1)
BF: - Nunca vi esse filme, como é?
MZ: - Antigo.

(2)
BF: - Ah, a garrafa não é tão pequena assim, quantos mililitros vêm?
MZ: - Poucos.

(3)
BF: - Adoro suas camisetas, onde você compra?
MZ: - Na loja.

domingo, 2 de maio de 2010

A favor e contra a corrente


Hoje a titia quer contar uma história, principalmente porque não desejo esquecê-la tão cedo.
Estava estudando umas cousas ontem e acabei caindo no nome Thor Heyerdahl, que deve ter sido uma pessoa fascinante. Em 1947 ele construiu uma balsa a partir de um modelo pré-histórico e, com ela, cruzou o Pacífico porque queria provar que os primeiros polinésios poderiam ter imigrado via América do Sul - ou seja, via meio hemisfério de água - e não pela Ásia, hipótese defendida pelos arqueólogos da época. Thor começou sua expedição porque, antes, estudando o oceano da região, deduziu que as correntes do Sul favoreciam a locomoção, embora representassem uma longa jornada do Peru até a Polinésia.

Os acadêmicos ridicularizaram essa ideia e criticaram o Thor, primeiro porque ele não tinha nada que se infiltrar em arqueologia, se era um zoologista; e, segundo, porque apresentou uma teoria audaciosa ao público sem submetê-la à academia.
Daí fiquei pensando em todas as pessoas que têm algo pra dizer e não conseguem, por causa de motivos idiotas como estes. Pensei na comunidade acadêmica brasileira e no que (não) consegui fazer através dela, no quanto eu e tantos outros fomos "podados" - não que eu tenha grandes coisas a dizer, muito pelo contrário. E pensei no Thor com muito carinho, quando li algo que ele disse sobre esse meio:
"(...) me deixou a convicção de que há algo de errado na ciência. Há tanta informação hoje em dia que, para fazer qualquer progresso, você é forçado a se especializar e qualquer tentativa no sentido de condensar é impossível e depreciada, enquanto que eu sempre procurei saber como as coisas se relacionam umas com as outras. Lamento pelos milhares de jovens que são esmagados por ortodoxias científicas antes mesmo de terem uma chance de avançar em suas próprias ideias".

Será que é por isso que eu tenho tanto receio das minhas ideias? Será por isso que defender minhas ideias já não me faz tanta diferença?

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Os Maias

Também conhecido como "Os Malas" pelos vestibulandos bocós que precisam destes trocadilhos para aguentar o tranco.
Escrito por Eça de Queirós, é desses livros que há muito tempo estavam na minha lista de "preciso ler" - finalmente rolou e o terminei nessa noite. Nem conseguia dormir depois, porque eu não queria ter terminado, queria que durasse pra sempre, não queria devolver na biblioteca, queria jantar no Ramalhete e ser da turma do Carlos da Maia e do pedante do Ega. Esnobes, egoístas, arrogantes, insuportáveis, mas que sabiam se divertir. E o livro tem piadas! E também é engraçado em momentos infames!

Há muito tempo um livro não me comovia tanto e não me dava vontade de gritar em alguns de seus momentos. Grande parte da referência cultural e social europeia do século XIX está ali (adoro século XIX) num retrato daquela que talvez tenha sido a última década em que a humanidade se entusiasmou com o mundo.

O primo Basílio? O crime do padre Amaro? É este Eça que deveriam nos dar para ler na escola. Sim, eu sei que seria impossível pedir que os alunos lessem um romance português tão extenso, etc, mas o fato é que Os Maias é incomparável, rico e delicioso em cada detalhe. As frequentes descrições que Eça adora escrever estão todas lá, os estrangeirismos, a excitação do século XIX, que sintetizava o mundo na palavra "progresso", os tipos e personagens únicos, a filosofia, as trivialidades e a as preocupações teóricas. Eça era um engajado em sua causa - conseguia estudar, digerir e pôr em prática as grandes propostas de sua época em sua obra. Como não vê-lo diluído e dissipado nas vozes de Ega, Alencar e Carlos? Como não simpatizar com o expoente máximo do realismo português que, ainda assim, se ressente e se expõe como herdeiro eterno do romantismo, no evidente diálogo final entre Carlos e Ega?

Tenho que amar o Eça depois disso.
Meeeu, Os maias...




"Não sei se ela ainda se lembra de uma boneca que eu lhe dei, que falava, dizia 'Napoleón'... Era no tempo do Império, até as desavergonhadas das bonecas eram imperialistas!" (p.481)

"Você alcança deste modo a coisa que mais se apetece neste nosso século XIX - a irresponsabilidade!... E depois para a sua família não é vergonha, porque você não tem família. Em resumo, convém-lhe?" (p.436, ed. Círculo do Livro)

sábado, 30 de maio de 2009

Firmin

"O bigode de Jerry era bastante espesso e atraía grãos de arroz como um ímã quando ele comia - os grãos pareciam voar na direção dele. Passado um bom tempo, quando já me sentia mais seguro quanto ao nosso relacionamento, eu costumava tirar esses grãos dali com as minhas patas e os engolia. Isso sempre o fazia rir. E, quando ele ria, era fácil imaginar que eu estava diante do homem não apenas mais inteligente, mas também mais feliz do mundo."


Firmin, de Sam Savage (Ed Planeta, 2008).

segunda-feira, 23 de março de 2009

cores X p&b

























Folha de SP, "Ilustrada", 23/03/09:
Emanoel Araujo tira cor de retratos consagrados

O capítulo "Walter Firmo em Preto-e-Branco", de "Brasil - Imagens da Terra e do Povo", traz fotos que foram consagradas em cores, como a de Pixinguinha que ilustra esta página. A opção foi de Emanoel Araujo, que foi o organizador do livro.
Firmo faz questão de não polemizar, mas assume que não gostou, por ver um "problema autoral". Diretor do Museu Afro Brasil e amigo do fotógrafo há muitos anos, Araujo diz que queria fazer um "contraponto".
"A fotografia em preto-e-branco do Walter nunca é visível, pois a cor nele é muito expressiva, luminosa. Talvez seja o fotógrafo brasileiro que usa melhor a cor. Queria ver como as fotos em preto-e-branco aparecem. E elas aparecem muitíssimo bem", afirma.

Mais mistério
Araujo destaca a série de fotos de 1966 da então desconhecida modelo Marina Montini, depois musa do pintor Di Cavalcanti. Está no livro em cores, como ficou mais conhecida, e em preto-e-branco.
"Ela ganhou um meio-tom que, de certa forma, a deixou mais misteriosa do que em cores. Não quero ser conservador, mas a cor às vezes subtrai a tensão da fotografia", diz ele, também responsável pela mostra de fotos de Firmo em cartaz no Afro Brasil.
Foi Araujo, também, quem decidiu que o livro abriria com um ensaio sobre São Paulo. Sob encomenda, Firmo foi às ruas da cidade em 2007. Um motivo forte da decisão é que o livro foi editado pela Imprensa Oficial do Estado, com recursos do governo estadual.
"São Paulo sempre fica preterida, talvez por não ser fotogênica, ou por ter uma fotogenia mais espartana, menos colorida, menos folclórica, menos tudo", justifica Araujo.
BRASIL - IMAGENS DA TERRA E DO POVO
Autor: Walter Firmo
Editora: Imprensa Oficial do Estado
Quanto: R$ 190

WALTER FIRMO EM PRETO-E-BRANCO
Quando: de ter. a dom., das 10h às 17h (até 29/3)
Onde: Museu Afro Brasil (av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 10, parque Ibirapuera, tel. 0/xx/11/5579-0593)
Quanto: grátis

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Quase nada assim tão feminino



(clique na imagem para ampliar)

"Quase nada", de Fábio Moon e Gabriel Bá, todo domingo no caderno Ilustrada do jornal Folha de SP.

Sinto que tanto o "Quase Nada" quanto eu já nos tornamos repetitivos. Isso não pode.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Citando

Dois dos muitos momentos inspirados de Joseph Conrad, que transcrevo para compartilhar com quem estiver passando por aqui e para não esquecê-los tão cedo:

"Eu não gosto do trabalho, não há homem que goste, mas eu gosto daquilo que há no trabalho - a chance de encontrar você mesmo. Sua própria realidade - para si próprio, e não para os outros- aquela que homem nenhum pode vir a conhecer. Eles podem apenas ver o mero show e nunca saber dizer o que ele realmente significa."

"...Não, é impossível; é impossível descrever a sensação crua de qualquer época da existência de alguém - a sensação que cria sua verdade e seu significado - em sua essência sutil e penetrante. É impossível. Vivemos da mesma maneira que sonhamos: sozinhos".

E eu não acreditava que alguém usasse tanto ; e - quanto eu.

Joseph Conrad, Coração das Trevas (Heart of Darkness, no original. A tradução dos trechos acima é minha).

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Quase nada assim tão malicioso




(clique na imagem para ampliar)

"Quase nada", de Fábio Moon e Gabriel Bá, todo domingo no caderno Ilustrada do jornal Folha de SP.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Quase nada assim tão dramático



(clique na imagem para ampliar)

"Quase nada", de Fábio Moon e Gabriel Bá, todo domingo no caderno Ilustrada do jornal Folha de SP.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Quase nada assim tão bonito


(clique na imagem para ampliar)

"Quase nada", de Fábio Moon e Gabriel Bá, todo domingo no caderno Ilustrada/ Folha de SP.

sábado, 27 de dezembro de 2008

A mão esquerda da escuridão

Sei que em dezembro fiquei absurdamente ausente do blog, por estar ocupada com trabalho e outras coisas, o que torna no mínimo estranho eu aparecer por aqui em pleno dia 27 para postar. Mas o fato é que eu precisava vir escrever agora, "no calor da hora", para falar a meus queridos leitores quão grandioso é o livro "A mão esquerda da escuridão", que acabei de ler hoje.
Escrito pela norte-americana Ursula K. Le Guin (página oficial dela aqui, meio zoada), é um livro geralmente definido como ficção científica; porém, assim que você passar os três primeiros capítulos, sentirá que é muito mais do que isso - é também sociologia, inventividade, psicologia, mitologia e ,claro, ciência, engenhosamente trabalhadas em uma narrativa de extrema qualidade, mas nem por isso difícil ou afetada. Enfim, recomendo muito que leiam, divirtam-se, meditem e depois me digam como essa mulher pôde escrever tal obra em 1969 (e em menos de 300 páginas).
Li a edição da editora Aleph, que, embora seja muito bonita, tem alguns deslizes na revisão e um raio de uma fonte que torna tudo mais difícil para o leitor (principalmente o leitor míope), mas meu exemplar está à sua disposição.
Há muitos anos não lia um livro que me pegasse tanto. Depois de um tempo envolvido com a ficção, é natural que ela se torne previsível ou que não dê mais prazer para quem desfruta dela (como ocorre com quase tudo nesta vida, aliás); hoje, entretanto, estou completamente consumida e arrasada, porque o livro acabou. Vida de nerd é muito ridícula.

"Em algum trecho do diário que Estraven escreveu, durante nossa longa e difícil travessia do Gelo Gobrin, ele se pergunta por que seu companheiro tem vergonha de chorar. Poderia ter-lhe dito, mesmo então, que era mais medo do que vergonha. Agora atravessava o Vale Sinoth e entrava no território frio localizado além do medo. Lá, descobri que se pode chorar à vontade, mas de nada adianta".

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Trajetória da Esperança

(...)"Estou convencido de que a análise política de Obama foi um fator decisivo. Ele concluiu que um tempo estava se acabando, que as querelas dos anos 60 chegavam ao esgotamento. Viu o país dividido entre republicanos e democratas, assim como outros pequenos impasses que o debate nacional estimulava. Resolveu construir pontes.
Esta decisão, para mim, foi sábia. De que adiantam debates estéreis, em que se volta para casa com uma sensação de superioridade moral, mas nenhum avanço prático?
Uma realidade importante até para o Brasil: embora existam dois fortes partidos disputando o poder, grande parte da população não se identifica integralmente com eles. Nos EUA, são os independentes. O candidato fala para os independentes. É capaz de mobilizá-los? Entre eles estão 40 milhões de jovens, ávidos por proposta de esperança.
Ao longo de dois anos de campanha, foi possível colocar o país de pé, esperando, com orgulho, horas numa fila de votação.
No Brasil, com nossos métodos modernos, podemos suprimir as filas. Mas estamos em condições de injetar esperança menos de uma década depois da eleição de Lula?"
Fernando Gabeira, Folha de SP, 07/11/2008. Completo (mas só para assinantes ou piratas): http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0711200805.htm

Dá um medo, não? Penso que estimular a esperança das pessoas é coisa complicadíssima e uma das maiores responsabilidades humanas, porque se você suscitar este sentimento, mas falhar em correspondê-lo mais tarde, alimentará novas descrenças. E, desnecessário dizer, não existirá decepção maior.