Quem tá acompanhando a polêmica Paulo Coelho X James Joyce? Já rendeu críticas impiedosas desde que o mago definiu Ulysses como um livro que, despido de todo seu exercício de estilo, não seria mais do que um tweet. Ainda por cima, detonou a complexidade vista na estética modernista, dizendo que moderno é ele, "porque faço o difícil parecer simples e, assim, me comunico com o mundo inteiro".
Não tiro o mérito dele em se comunicar com o mundo inteiro, mas argumentar que Ulysses é prejudicial à literatura pelo simples fato de que "faz com que escritores queiram impressionar outros escritores" deveria ofender publicamente todo o público do Paulo Coelho. Primeiro porque com essa declaração ele deixa claro que seus leitores o são porque seus livros são fáceis e processados para que seu público os entendam. Segundo, são livros que não se preocupam com a forma, o que é condição essencial para que se faça a literatura propriamente dita (e todo o mais é autoajuda). Terceiro, e último, porque ignora a dimensão artística que a literatura deve ter ao menos a pretensão de buscar.
Muita gente de calibre já criticou Ulysses. De acordo com o Guardian, Roddy Doyle já disse que o romance seria melhor se tivesse passado pelo crivo de um bom editor e que duvida que as pessoas que o colocam entre os dez melhores livros já escritos tenham realmente se emocionado com ele.
O que eu sei é o seguinte: Joyce pega um dia na vida de Leopold Bloom em Dublin, matéria bruta e comum a todo ser humano, e transforma isso em um calhamaço de 265.000 palavras. É assim que artistas retiram a obviedade daquilo que é cotidiano e comum a todos (e, por isso, a obra de arte nos une e nos diz respeito) e criam algo novo para esse conteúdo bruto, apenas concebendo uma nova forma para falar sobre esse "tweet". No caso do Joyce, a forma escolhida foi um trabalho profundo de escrita, com estruturação cuidadosa do romance, fluxo de consciência e prosa experimental que mistura piadas, paródias, alusões e jogos de palavras. Além do paralelo óbvio com o Ulisses de Homero, marco inaugural da literatura Ocidental, agora revisto sob a perspectiva do Modernismo, quando todas as possibilidades e experimentações com a linguagem já pareciam esgotadas e precisavam de reciclagem.
Então, se a arte não puder fazer isso por nós, minha gente, é melhor que o mundo acabe agora, sem mais delongas e sem angústias adicionais. E não há motivos para a escrita se isentar de seu papel artístico, porque de vampiros, revelações espirituais e 50 tons de cinza já estamos muito bem servidos, obrigada.
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