quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Coelho, Joyce, Welsh

Quem tá acompanhando a polêmica Paulo Coelho X James Joyce? Já rendeu críticas impiedosas desde que o mago definiu Ulysses como um livro que, despido de todo seu exercício de estilo, não seria mais do que um tweet. Ainda por cima, detonou a complexidade vista na estética modernista, dizendo que moderno é ele, "porque faço o difícil parecer simples e, assim, me comunico com o mundo inteiro". 


Não tiro o mérito dele em se comunicar com o mundo inteiro, mas argumentar que Ulysses é prejudicial à literatura pelo simples fato de que "faz com que escritores queiram impressionar outros escritores" deveria ofender publicamente todo o público do Paulo Coelho. Primeiro porque com essa declaração ele deixa claro que seus leitores o são porque seus livros são fáceis e processados para que seu público os entendam. Segundo, são livros que não se preocupam com a forma, o que é condição essencial para que se faça a literatura propriamente dita (e todo o mais é autoajuda). Terceiro, e último, porque ignora a dimensão artística que a literatura deve ter ao menos a pretensão de buscar. 



Muita gente de calibre já criticou Ulysses. De acordo com o Guardian, Roddy Doyle já disse que o romance  seria melhor se tivesse passado pelo crivo de um bom editor e que duvida que as pessoas que o colocam entre os dez melhores livros já escritos tenham realmente se emocionado com ele. 



O que eu sei é o seguinte: Joyce pega um dia na vida de Leopold Bloom em Dublin, matéria bruta e comum a todo ser humano, e transforma isso em um calhamaço de 265.000 palavras. É assim que artistas retiram a obviedade daquilo que é cotidiano e comum a todos (e, por isso, a obra de arte nos une e nos diz respeito) e criam algo novo para esse conteúdo bruto, apenas concebendo uma nova forma para falar sobre esse "tweet". No caso do Joyce, a forma escolhida foi um trabalho profundo de escrita, com estruturação cuidadosa do romance, fluxo de consciência e prosa experimental que mistura piadas, paródias, alusões e jogos de palavras. Além do paralelo óbvio com o Ulisses de Homero, marco inaugural da literatura Ocidental, agora revisto sob a perspectiva do Modernismo, quando todas as possibilidades e experimentações com a linguagem já pareciam esgotadas e precisavam de reciclagem. 



Então, se a arte não puder fazer isso por nós, minha gente, é melhor que o mundo acabe agora, sem mais delongas e sem angústias adicionais. E não há motivos para a escrita se isentar de seu papel artístico, porque de vampiros, revelações espirituais e 50 tons de cinza já estamos muito bem servidos, obrigada.



*


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Valentia virtual

Achei tão bom esse texto da Julia Petit que fui obrigada a ligar: http://juliapetit.com.br/colunas/julia-petit/a-furia-2/

Já faz uns anos que parei de ler comentários na internet, só me fazem doer o fígado e perder a fé na humanidade.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Em construção

Ocupada - mas bastante empolgada - com meu novo blog, ainda em construção, mas já blogando a pleno vapor. Estou mendigando sugestões e todo tipo de palpites - sobre o título, cores, conteúdo, layout, idioma, etc. Fiz uma foto linda pra colocar de capa, só que o espaço dado pelo blog fez com que ela ficasse toda torta, sempre tem alguma coisa puxando nossas pernas :)
Então vai lá e tenha a bondade de me dizer o que acha: http://isabellaferraroblog.wordpress.com

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Diário de viagem

Não, eu não moraria em Amsterdã, mas Edimburgo me deixa tentada e em Londres eu moraria com certeza, mesmo não me dando bem com frio, mesmo não tendo um café decente pra tomar, mesmo não amando a farofa às margens do Tâmisa e mesmo levando rasteiras em libra esterlina. Podia ser só por um ano, podia ser qualquer quartinho, desde que eu pudesse ir até o trabalho de metrô e desde que eu fosse obrigada a passar pela estação de Baker Street todos os dias. Londres, pra mim, é a resposta para todos os momentos em que eu não sei o que fazer da vida. 


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Férias

Neste exato momento enfrento aquele misto de preguiça e angústia de ter que fazer as malas.

Volto em maio.

Ou em junho, porque tô estudando pra Cambridge e vocês sabem como sou nerd.

Cuidem-se, beijos. Não deixem de passar aqui de vez em quando e deixar recadinhos, adoro recadinhos.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Momento divulgação

Atentem para os links novos (ou nem tanto) de amigos que realmente blogam e que são realmente amigos, e não aquela simples bobagem de "blogs amigos" que trocam selinhos, visitas e recordes entre si. Tanto é que são apenas 3 links.

domingo, 15 de abril de 2012

Volver a los 17

Passei o final de semana inteiro estudando, fazendo pesquisa e intercalando saidinhas rápidas à noite. Não fazia isso desde a época do vestibular.



Se eu achei ruim? Não, em nenhum momento vi motivo pra reclamar, nunca achei que estudar era ruim de verdade, fazer a prática acontecer é que pode ser desconcertantemente ruim e pode te fazer esquecer de você mesmo e de todo o resto.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Verão

Meu momento favorito do domingo é te encontrar na mesa do café ainda de pijama e descabelado. Tudo o que fazemos é trocar uns grunhidos enquanto nenhum de nós ainda se animou a falar. A tv geralmente tá ligada e quando ouvimos algum apresentador imbecil, ou bufamos ou rimos seco, com as bocas fechadas. Dividíamos a faca da manteiga, na época em que você ainda comia manteiga, mas nossa constante é o deboche e a tiração de sarro com a tv, com nós mesmos, com a vida. Você dá risada de todas as besteiras que eu falo e daí eu desato a falar mais besteira ainda, terminamos as frases um do outro desde crianças, citamos diálogos inteiros de filmes e a razão de repetirmos tanto as mesmas piadas internas é porque elas estão pra nós, hoje, como antes estavam os filmes que alugávamos mil vezes na locadora. 
Às vezes parece que nunca vai acabar e seria daquelas coisas que eu não ligaria se nunca acabasse. Quando éramos crianças eu costumava pensar se depois de "adultos" ainda seríamos felizes um com o outro, acho que somos ainda mais e isso me dá uma certa angústia - sabemos que não será pra sempre e que não será sempre desse jeito, mas, como acontece com tudo o que amo, é simples assim: não consigo parar.

Feliz aniversário, Ivan Ferraro!


quarta-feira, 4 de abril de 2012

Pina

Tô doente e não dá pra fazer nada direito, muito menos pensar ou escrever. Uma pena, pois já faz vários dias que quero falar sobre o Pina. Quer você goste de dança ou não, isso é o de menos; Pina é tido como o primeiro filme 'de arte' feito para o 3D  e os professores de educação artística deveriam incluir esse documentário em todos os seus cursos.
Fosse apenas um passeio pelas obras da Pina Bausch, já estaríamos bem; mas o fato de ser um doc dirigido pelo Wim Wenders faz cada coreografia multiplicar seus significados, porque o cara propõe os cenários mais pertinentes e sabe exatamente onde colocar a câmera.
Pina é brutal e um bocado sombrio. Há vários momentos célebres - o cara dançando no cânion me dá vontade de levantar da poltrona e gritar -, mas o que mais me comove é o registro da 'Sagração'. Duvido que alguém faça melhor captura da expressão de temor da bailarina, antecipando seu estupro (no 1'30 do trailer). Assistam, façavor.


terça-feira, 27 de março de 2012

Sem que eu quisesse ou não quisesse

Sim, eu sei que tem aquela fase na vida em que o único heterônimo do Pessoa pra você é o Álvaro de Campos; pra mim foi na adolescência que o Álvaro surtiu efeito, ele dava voz a toda a urgência, inconformismo, desilusão com a vida - drama, drama, drama! -, eram dele todos os poemas que eu queria ter escrito e ainda tinha o fato de ele ser engenheiro (hihihi, referência interna).

Hoje em dia, entretanto, ninguém me supre tanto quanto o Alberto Caeiro. Sem estudo, sem cultura, sem convívio social, poeta sensorial e instintivo, mestre dos demais e do próprio Pessoa. Gosto porque me lembra a poesia oriental dos haikais e porque cada poema veicula uma ou poucas imagens, que são um misto de exercício e desafio para quem lê, primeiro como forma de despir tudo o que é calculado, construído e rimado na estrutura de um poema para, em seguida, revelar metapoesia (no conceito não-aristotélico do Pessoa). Pra mim é matéria pura e arte primitiva, como a dança ou a música, praticamente um culto pagão, que só existe porque antes existiu uma necessidade íntima. Ricardo Reis celebra a obra de Caeiro dizendo "O Grande Pã renasceu!" e não acredito que algo além disso precise ser dito ou expresse melhor o que Caeiro representa. 
















Minha edição é da Companhia de Bolso - mais barata e com páginas menos delicadas do que as da versão luxo da Nova Fronteira. Tem que ser chumbo grosso pra quem dorme lendo, carrega livro na bolsa e ainda marca a página com o óculos. E-book pra poesia ainda não dá.

domingo, 18 de março de 2012

Communication breakdown

Ontem vi "O Artista" pela segunda vez. Apesar de toda a atenção que o filme já recebeu e sei lá quantos prêmios, eu tenho que recomendá-lo.
Não é uma ficção muda, porque cada atuação e cada registro escrito do filme gritam a realidade do cinema e dos Estados Unidos (anos 20 e 30, quebra da Bolsa, etc) em alto e bom som nos ouvidos de quem assiste. Clichês sem fim, todos eles reunidos; e muitas, muitas  mensagens subliminares e de duplo sentido (uma das minhas favoritas: "Geroge, we need to talk").  
Não é uma história sobre o vencedor, e sim sobre o vencido. "Cantando na chuva" já tinha discutido o momento da transição dos dos filmes mudos para os falados, mas só mostrou os atores que conseguiram se adaptar ao novo formato; como ficou a vida dos atores que foram pra sarjeta porque não conseguiram ou porque se recusaram a alterar sua arte? Legal alguém ter olhado para o outro lado, né?
Não é um filme, é uma crítica com o roteiro mais sólido dos últimos tempos. Para além do caráter artesanal, por que alguém faria um filme mudo e p&b hoje, se temos técnicas tão celebradas de som e 3D? É isso o que "O Artista" pergunta e responde. E o irônico é que ele tem muito a dizer.  
 
Afinal, como uma mensagem pode ser transmitida? Palavras a fazem mais efetiva? É possível que o silêncio consiga expressar mais do que a fala? O silêncio potencializa a arte? 

 
Só tenho certeza de que o p&b potencializa a beleza e a sensualidade de tudo nessa vida, porque a fotografia deste filme é um show à parte. Outra certeza é que a atuação do cachorro não só é extremamente simbólica como faz toda a diferença no filme e na ideia de (in) comunicabilidade que ele discute - o cachorrinho é a única personagem do filme que não tem os canais de comunicação entupidos.

Dialética da vida, pode ser que apenas no silêncio surja a necessidade real de falar. Em 2012, "podemos não falar o que queremos, mas certamente a gente só escuta o que quer", como tuitou Laerte Coutinho. Em meio a muitos que falam muito sem dizer nada e quando quase tudo o que se fala pode ser mal-interpretado, gerar processo e até cadeia, repensar as barreiras comunicativas e sonoras foi uma das maiores sacadas d' "O Artista", já que outra oposição assombrosa é esta que te faz entender melhor o presente quando você olha pro passado.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Razão e Negação

-... o que eu tô tentando dizer é que as pessoas costumam falar "é melhor nem pensar duas vezes", mas na verdade elas só falam isso da boca pra fora. Eu acho que tinha que estar claro pra todo mundo que tem hora que o cérebro não consegue ajudar em nada, pelo contrário, se você tentar seguir tua razão, procurar um sentido ou ficar arrumando justificativas, teu cérebro só vai te atrapalhar.
- É, eu também acho. Ficou automático demais analisar e calcular emoções, ninguém mais dá importância para o instinto. Quando dá, é 'instinto' na acepção do pessoal de rh.
- Ahahah, verdade! Você sabe que o que eu mais gosto de ver na tv é programa de bicho, né? Por esse mesmo motivo. O cordeirinho tá lá, de boa, bebendo no riacho, comendo capim, cuidando das suas necessidades básicas; de repente vem o leão pra jantar alguém, que pode ser o cordeirinho em questão ou alguém do grupo dele. O cordeirinho sabe que tá lá pra ser comido e, se não for dessa vez, um minuto depois de o leão sumir o cordeirinho vai voltar pro capim, como se nada tivesse acontecido. Até a fome de todo mundo voltar e tudo se repetir.
- Pro ser humano voltar a ser passivo desse jeito, só se os dinossauros voltassem a existir. A gente civilizou demais e passou a se dar mais importância do que deveria. 
- Pois é, mas por quê? O homem continua sendo animal e, mesmo quando admite isso, parece querer negar, ou simplesmente não consegue perceber que as coisas que o movem de verdade são os mesmos fatores crus da natureza selvagem. Quando eu tô em crise eu tenho que ir pra frente da tv e assistir programa de bicho. Tá tudo ali.

sábado, 10 de março de 2012

A cidade e a serra

Sobre a permissão/suspensão de empreendimentos na Serra do Japi, acho legal ler aqui, depois aqui e seguir @votojundiai

E fique de olho. E fale com todos. E, por via das dúvidas, faça uma oração sincera para a tchurma que comanda e decide, afinal, o que pode dar errado em 5 anos?

Eu, o cara


Às vezes eu prefiro cortar a conversa e patir logo para a ação. Você prefere ir com mais calma, mas ficar no vácuo me deixa doente, se eu começar a roer as unhas e morder os lábios você vai passar o resto da noite me abraçando e fazendo tudo pra me sossegar. Você não esquece nenhuma data e é mais atencioso do que eu jamais conseguirei ser. Eu mudo de humor em um piscar de olhos, você pergunta o que foi, eu digo que não foi nada, você sabe que às vezes eu sou o cara.


domingo, 4 de março de 2012

A cidade e o cinema

2 de agosto de 1935 - Realizava-se no palco do Polytheama o Primeiro Desfile de Modas de Me. Genny, apresentado pelo transformista Haymond, que também imitou as mais célebres cantoras e estrelas do cinema da época. 

18 de setembro de 1927 - Funcionavam na cidade ininterruptamente durante toda a semana os seguintes cinemas: Polytheama, com 3000 lugares; Cine Teatro Rio Branco, 800 lugares; Ideal Cinema, 1000 lugares e o República, na Vila Arens, com 1800 lugares. 

O que aconteceu? Por que hoje temos que ir ao shopping toda vez que queremos ir ao cinema? E por que não temos mais transformistas se apresentando no Poly? Jundiaí era muito mais descolada quando ainda era província.

*

Enquanto isso, na Pinacoteca, tem o grafite de Alex Vallauri durante o mês de março, mas ainda não consegui conferir. Espero estar errada, mas parece que a exposição se resume a uma única tela e parece, ainda, que eles vêm expondo uma única obra de um único artista a cada mês. O que, pra mim, não faz o menor sentido.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Pergunte aos astros

Momentos de desafio surgirão, libriana, e é nessas horas que as qualidades pessoais são testadas e as lições, aprendidas. Hobbies e interesses pessoais poderão ser a grande fonte de satisfação para a nativa de cão em 2012, romances podem exigir entendimento mútuo, abandone a ideia de que existe apenas um homem ideal para você, pergunte ao seu namorado o que ele acha disso, pergunte ao seu ex como foi a vida dele ao seu lado, pergunte a si mesma quantas pessoas realmente conseguem te aturar e pergunte a todos se é plausível fazer apenas o que te dá na telha sem se preocupar com mais ninguém.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Coisas que acontecem

A flor roxa quem me deu foi um velhinho chamado Lula, quando passei em frente à casa de repouso onde ele mora, hoje cedo. Eu tava do outro lado da rua e ele me chamou. Eu fui até lá e ele me estendeu a florzinha. Eu agradeci e disse que roxo é a cor que eu mais gosto. Ele me contou uma piada e eu dei risada. Eu perguntei se ele estava bem, ele disse que sim. Ele pediu pra eu ir lá visitá-lo mais vezes e eu disse que irei. Eu beijei a mão dele e ele beijou a minha. Nos despedimos e levei um minuto procurando meu rumo de novo, duvidando de tudo o que já aconteceu na minha vida.

Tem coisas que você não acredita que acontecem.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Segue o jogo

 
Foi um alívio enorme pensar que já tinha acabado, que eu já tava fora do jogo e podia seguir em frente sem ter que deslizar em outro palco, mas alguém apareceu do nada e me chamou, dizendo ainda não. Fique e dê o que for possível.

Mesmo assim, vai faltar ar, vai faltar impulso e costela, vai faltar língua, suor e saliva, o giro não vai ser completo -  eu achei que tava livre disso tudo e que tinha finalmente encontrado o eixo, mas mais uma vez gritei isso muito cedo.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Papudos de Jundiahy

"Devo também notar que o bocio, infelizmente tão comum em certas partes da província de São Paulo, ainda o é mais talvez em Jundiahy e seus arredores e que os habitantes desta cidade são appelidados de papudos de Jundiahy.  Como observaram muito em Spix e Martius, essa doença não é no Brasil acompanhada do completo hebetismo que caracterisa os papudos dos valles da Suissa, e se os de certos pontos da Província de São Paulo, como por exemplo os que habitam entre Hytú e Itapeva são apathicos e pouco inteligentes, seus vizinhos não papudos não são mais inteligentes, nem mais activos".   Saint Hilaire, São Paulo nos tempos coloniaes. Sultana - 3/7/1935.     
Bastou corrigir a dosagem de iodo na rede de distribuição da água e os papudos deixaram de existir por completo na nossa cidade. (?)

Se também houvesse iodo pra pouca inteligência, estaríamos bem. 

    

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Prelúdio

Sting e Alessandra, Bach e balé! Ótimo trabalho de pés, locação liiiiiinda e de quebra o Sting mostrando suas habilidades no yoga, já que pra ele o prelúdio no violão não é difícil o suficiente. Não preciso de muito mais numa manhã em que acordei tarde e fiquei tomando café por tempo indeterminado, até um horário aceitável.

Bom Carnaval e não se acabem, é possível se divertir sem amnésia. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Filosofia fundamental

A Boston Review do último mês publicou um artigo de um filósofo canadense sobre o ensino de filosofia a alunos do nível fundamental no Brasil. Gosto muito de ler artigos estrangeiros que têm o Brasil como assunto. Divulgaram o texto em chamadas elogiosas, dizendo que no Brasil todo aluno estuda filosofia - Platão, ética e os desígnios divinos, o que muitos consideraram impressionante. O autor na verdade quer mostrar que os filósofos acadêmicos não acham isso nada impressionante e sequer útil. A lei de 2008 alega que o ensino de filosofia é especialmente necessário para o "exercício da cidadania" (link para a LDB nacional). Para os acadêmicos, isso não passa de uma disciplina escolar e não envolve uma prática democrática ou emancipatória.
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Os professores entrevistados pelo canadense, entretanto, defendem sua missão: "Imagine o que meus alunos da noite - taxistas, faxineiras, pedreiros - diriam se eu pedisse para eles estudarem a Crítica da Razão Pura, de Kant. Se os alunos não puderem relacionar o que eles estudam com suas próprias experiências, qual será a utilidade?"
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"Porém, há inúmeras experiências vivenciadas pelos alunos que poderiam ser abordadas em uma aula de filosofia. Considerem o mito da igualdade racial no Brasil, a ideia de que o Brasil é uma 'democracia racial'. Seguindo o ideal Socrático da busca pelo auto-conhecimento, João Belmiro pede que seus alunos esbocem sua biografia e árvore genealógica. 'Eles sempre sabem muito mais sobre a parte branca de sua família do que sobre a parte negra'. Um colega branco me disse que sua esposa não vai à praia com ele, porque acha que as pessoas vão pensar que ela é uma prostituta saindo com um gringo. Outro colega branco hesita em levar sua mulher para conhecer os pais dele: 'Eles são pobres e sem estudo; ela tem mestrado em História e é diretora de um arquivo de manuscritos raros do período colonial'. Em um país onde as raças se misturam tão intensamente, por que a cor da pele ainda se faz tão presente?" 
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Mas o mais legal é ver o exemplo de discussão que esse filósofo canadense coletou durante a pesquisa que fez em algumas aulas de filosofia para ensino fundamental em colégios de Salvador:

Antes, os alunos me fizeram mais perguntas. "É verdade que o bacon canadense é o melhor do mundo? O que os estrangeiros pensam do Brasil? Como você se interessou por filosofia?" E, de modo ainda mais pessoal, "você acredita em Deus?". Eu tentei sair dessa usando o Deus impessoal de Spinoza, o que não significou nada pros alunos e, pra falar a verdade, eu não acredito nem mesmo no Deus do Spinoza. "Ahá, a gente já sabia, todos os filósofos são ateus!" (...) Contei a eles que até o século XIX quase nenhum filósofo era ateu. Iniciamos uma discussão ativa tomando o Euthyphro, do Platão, cujo argumento é a relação entre Ética e a vontade dos deuses.
Perguntei:  “As normas morais dependem da vontade de Deus? É justo matar uma criança inocente se Deus pedir para fazermos isso?" Os alunos se revoltaram com a ideia. 
“Mas Deus não pediu para Abraão sacrificar Isaac?" Perguntei novamente. Houve um momento de confusão.
“Mas Abraão atribuiu a responsabilidade a Deus que ele quis destruir Sodoma e Gomorra", respondeu um aluno. Admiti que isso poderia ser visto como uma norma independente de fazer justiça. E pressionei mais:
“Mas se submetermos Deus a normas morais objetivas, pra quê precisamos da bíblia como guia moral?"
Outro aluno questiona se a razão pode substituir a bíblia: "a razão justifica o assassinato de uma criança inocente, se é a única maneira de salvar outras mil vidas".
Assumimos, por um momento, que a razão não detém normas morais absolutas. "Mas como podemos nos fiar na autoridade da bíblia se ela mesma sofre tantas interpretações? " Perguntei. Um terceiro aluno interferiu: "E se cada interpretação for correta em seu tempo e espaço?". Lembrei a eles do Museu de Arte Moderna de Salvador, que eles visitaram em uma excursão da escola. Fica em uma linda Casa Grande restaurada, com sua Senzala adjacente. "Vocês se lembram que lá tinha uma capela? Ir à missa e ter escravos não era uma contradição naquela época". A maioria dos alunos tem escravos entre seus ancestrais. Por isso, eles relutaram em considerar válida uma interpretação da bíblia que permita a escravidão. "Então, será que a razão é o arbítrio entre as interpretações conflitantes?"
*
Isso tudo acontecendo agora, em Salvador. Desnecessário dizer que não acho filosofia inútil, qualquer que seja sua profissão ou suas ambições de vida.  Não sei se ajuda tão diretamente no exercício da cidadania, como prega a lei, mas ajuda a estudar qualquer outra disciplina escolar, as maneiras de ver seu trabalho e a condição humana. É a centelha que torna qualquer pessoa apta a refletir e se posicionar em qualquer assunto. Pra mim é notável ver a educação nacional oferecendo livre pensar desde cedo nos colégios.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Tentativa e erro



O argumento até que é original (um serial killer brasileiro, investigação brasileira, cenário brasileiro) e o traço é interessante, mas não vi muito mais do que isso. As citações literárias são muitas e estão todas soltas dentro do texto sem grandes cálculos, a discussão micro X macro (bem como o próprio conceito de fractal) não passa de um esboço que se perde ao longo da hq, a história precisava de mais cozimento (foi muito fácil pra mim saber quem era o culpado já na página 11) e todo o desfecho foi meio que despejado de qualquer maneira, destruindo de supetão o pouco que tinha conseguido construir. Acredito que eles tenham tido algum empecilho editorial ou algo do tipo, porque não vejo sentido em publicar um material que nem os autores parecem levar muito a sério.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Os outros

À mesa do restaurante
sentados frente a frente
você e eu
lemos.

Os outros olham
e pensam:
que casal indiferente.
Enganam-se.
É lendo juntos
cada um no casulo do seu livro
que você
e eu
mais nos amamos.

Marina Colasanti, Passageira em Trânsito. Ed. Record, 2008. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Não deixe a cantada morrer

Quis escrever sobre o Wando quando soube da morte dele, apesar de nunca ter sido fã suficiente pra comprar cd, tampouco pra ir a shows do cara e jogar a calcinha no palco (calcinha não - o Wando chamava de "peças íntimas" e só isso já diz muito sobre o caráter dele, me desculpem, nem eu que sou toda afetada me refiro a calcinhas desse jeito). O que eu gostava no Wando era a importância que ele dava para o romance diário (tanto que, às vezes, até ficava seboso), mas, principalmente, o tratamento que ele dirige às mulheres das suas canções, como se ele fosse um galanteador incorrigível e sempre munido de uma cantada sincera, atrevida, mas ainda assim cortês, que revela tudo sem jamais descambar para a vulgaridade ou grosseria. A cantada infinita, de todo dia, para a mesma pessoa ou nem sempre. Talvez pelo fato de eu ser extremamente vulnerável a palavras, fico sempre admirada com pessoas que dominam essa abordagem com tanta elegância. 

Daí eu fui ler a Folha de SP de ontem e dei de cara com um texto do Xico Sá, de quem nem gosto muito, mas que detalha um pouco mais essa habilidade do Wando, que achei principalmente útil por ser um ponto de vista masculino sobre o cantor (editei um pouco): 

"Com a morte de Wando, a música brasileira perde o seu professor titular de educação sentimental para as massas. A ausência do cantor mineiro não nos deixa órfãos. Pior: nos deixa brochas.

Em tempos de marmanjos vacilões e promessinhas metrossexuais de salão ("ai se eu te pego"), Wando representava a convicção da pegada mais erótica e sincera do cancioneiro romântico.

A lição do professor Wando aos jovens apressados que sempre comem o cru e nunca o bom cozido das relações afetivas: "O amor é paciência e elegância", disse, em entrevista recente a Edson Franco, na "IstoÉ Online".

Atenção senhores pais e autoridades do MEC: a lírica de Wando merece figurar no próximo exame do Enem. Melhor jeito de formar sentimentalmente as novas gerações.

Na pedagogia do autor de "Fogo e Paixão", o macho falhar na alcova era algo humaníssimo. Coisa que o homem dos tempos enviagrados das ereções artificiais não parece admitir. "Afago teus cabelos/ Beijo tuas costas e nada/Caem dos meus olhos/Duas lágrimas geladas", cantava.

Para as fêmeas, Wando representava não apenas a resistência à frouxidão masculina como também a nostalgia de um certo cavalheirismo que já foi para as cucuias. Com ele no palco, as moças - mesmo as de passado muito forte- se sentiam cortejadas como na primeira vez.

O artista sabia que a cantada é como a revolução de Mao Tse-tung. Tem que ser permanente. Ele cantava todas o tempo inteiro."

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Lampedusa

Em Lampedusa todo mundo é imigrante, todo mundo veio de algum outro lugar. A ilha tá entupida de refugiados e de prisões; a realidade daqui virou um excelente negócio. Quem precisa de turismo?

Ninguém quer vir pra Lampedusa, foi Qaddafi quem a colocou no mapa, vocês chamam isso de crise, mas é mais, é uma condição. Assim que vocês jornalistas voltarem para casa, os refugiados já estarão invisíveis. E só encontrarão a prisão.

Dezenas de homens sarados e bronzeados descansam e correm às margens do Mediterrâneo todos os dias. Não fazem meu tipo. Nessa zona de confronto eles esbanjam pinta de turista, mas não passam de policiais, assim como o vendedor de camisetas é apenas mais um jornalista buscando furos. Nesse cenário de poucos interesses, nenhum disfarce é eficaz.

Mas, e então, senhor jornalista, quais informações um refugiado te revelaria? Quais destas informações o seu patrão publicaria?

Todos falam da culpa do sobrevivente, ninguém fala da culpa do observador. Os refugiados que chegam a Lampedusa só sobrevivem para se convencer da necessidade de afogar seus bebês no mar Mediterrâneo, à noite; alguém sempre terá o azar de observá-los voltando à superfície, como rolhas. Dejetos da primavera árabe, a África é lançada às marés da Europa, na ilha de Lampedusa.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Fogo Morto 2

Imagem da chaminé da Argos atualmente, só para concluir a postagem anterior sem arranjar problemas com direitos autorais e porque, como estive na biblioteca sábado, aproveitei pra fotografar eu mesma.
*extrema falta do que fazer no fds*


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Fogo morto

Em Jundiaí, só sobram as chaminés para contar história. Pensei nisso hoje, ao lado da extinta Argos, enquanto esperava o semáforo abrir e olhava pra sua chaminé ali isolada, apagada e sem ninguém para conversar.
Não sei o que leva as construtoras dos prédios enormes e modernos a destruir todas as provas e preservar apenas as chaminés, mas suspeito que elas as vejam como medalhas. Aqui na Vila Arens temos pelo menos 3 chaminés evocando o início do século XX (idos de 1914, mais precisamente): a da antiga fábrica de fósforos Argos, onde hoje fica o Complexo Argos (ah, ironia...), depois a chaminé da antiga fábrica de tecidos Japy (ei, minha vó e minha tia trabalharam nessa fábrica, e sabem mais quem? Adoniran Barbosa). 
A terceira chaminé do meu bairro é a que pertencia à tecelagem São Bento, ou melhor, Companhia Jundiahyana de Tecidos e Cultura S.A., primeira indústria da cidade. O que restava da fábrica foi demolido em 2008 e a paisagem mudou, literalmente, da noite pro dia, vi tudo da minha varanda e, em seguida (apenas em seguida) apareceu uma galera questionando se a demolição fora mesmo prevista na lei, porque o local estava prestes a ser tombado, etc, etc. Essa galera foi devidamente silenciada quase que no mesmo momento, até para poupar os futuros moradores do residencial de sofrer uma descarga súbita de lucidez. 
Mas nada extremo ocorre em Jundiaí e é apenas essa a história que estas chaminés brutas, artesanais e ricamente decoradas conseguem contar.

 (A matéria oficial da demolição da S. Bento não tá mais no arquivo virtual do Jornal de Jundiaí, mas eu arranquei essa foto da versão impressa e guardei no meu diário de 2008).

*

Felizmente encontrei os textos da Regina, que falam sobre o mesmo assunto com autoridade e documentação apropriada.  Força, Regina!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Em construção (não?)

Vim aqui com vontade de escrever, mas acho que não consigo, meu olho direito tá tremendo MUITO, como jamais tremeu antes, e parece até que está meio torto no rosto, quase cubista. Volto em breve, durmam bem ^_^


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Contos do desencanto 2

"Sinto uma vontade insuportável de comer, beber, dormir e conversar sobre literatura, ou seja, ficar sem fazer nada e ao mesmo tempo sentir-me um homem honesto. Aliás, se minha ociosidade lhe causa repugnância, posso prometer escrever com você, ou ao seu lado, uma peça, um conto... Que tal? Não quer? Bem, você é quem sabe". 
 "Você não é difícil de entender, e se repreende inutilmente por não se expressar de forma clara. É um beberrão inveterado, eu lhe servi uma limonada convencional, e você reclama com justiça que nessa bebida não tem álcool (...) Diga-me com toda sinceridade quem, da minha geração, deu ao mundo apenas uma gota de álcool? Acaso Korolenko, Nadson e todos os dramaturgos contemporâneos não são limonada? O único que não enxerga isso é Stassov, a quem a natureza deu a rara capacidade de inebriar-se até com a água em que lavaram a louça"

Agora que terminei os extras do livro do Tchekhov (postagem anterior), separei essas citações para registrar e não esquecer que as cartas reunidas no final são muitas vezes mais inspiradoras do que os próprios contos. E em todos os contos as baratas apareceram de alguma maneira - na comida, nos cadáveres, bêbadas pelo chão, isso deve ter me afetado mais do que pensei.  Mas foi reconfortante ver que naquela época eles também eram vítimas do reencaminhamento de correspondência, apesar de ainda não terem email nem facebook.

"(...) e se Sazonova sem mais nem menos ficou assustada com o bicho-papão, isso não significa que eu, na minha carta, tenha sido maledicente ou insincero. Você mesmo só viu alguma insinceridade na carta depois que ela lhe escreveu, caso contrário você não teria enviado minha carta para ela. Em minhas cartas para você muitas vezes sou injusto e ingênuo, mas nunca escrevo aquilo que não sinto"

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Contos do desencanto

Cosac&Naify, 2006.
O que sempre rouba a cena num Tchekhov são as personagens, quer falemos de uma peça, de contos ou de qualquer outro gênero em que ele se aventure. Tchekhov foi um médico-autor/autor-médico e, por isso, é compreensível e até mesmo esperado que ele busque exprimir o humano em todos os âmbitos de sua vida. 
É mais esperado, ainda, que estes contos tardios em sua carreira se atenham aos caracteres mais mesquinhos e abjetos do ser humano; não há os bons, apenas os maus e os ignorantes do grande circo conduzido pelo governo da Mãe Rússia (do Brasil? de Lilliput? de qualquer lugar, ficcional ou não.
Não há mais humor. As cartas do final do volume ajudam a entender melhor a desilusão de Tchekhov e o cunho socialista que atribuiu a estes escritos, depois dos anos de despojo e luta no tratamento contra o cólera que assolava a Rússia de sua época. Não se encontra, entretanto, a mesma contribuição em seu prefácio, intitulado "A ficção da indiferença" - afinal, a ficção tecida nestas histórias busca justamente nos sensibilizar para o debate das ideias que Tchekhov julga primárias ao homem, e isso não tem nada de indiferente. Além do mais, despreza um bom tanto daquilo que definimos como ficção.
Não achei ruim, mas não achei incrível, talvez tenha esperado demais pra ler esse ou talvez tenha alimentado muita expectativa pelo furor que gerou quando foi lançado, blablabla.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Coração

O coração da criança é igualzinho ao coração do adulto, toda vez que você escreve você tem que chegar ao coração de alguém. Chegar ao coração de alguém é que é muito difícil, porque você tem que abrir o seu.

Marina Colasanti, falando que escrever pra adulto e pra criança demanda o mesmo nível de dificuldade.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Saturday Night Life

"O Telecine Cult dedica seu sábado a Ingmar Bergman, com 'Gritos e Sussurros' (22h, 12 anos) e 'Quando duas mulheres pecam' (23h45, 12 anos). Convém admitir, para começo de conversa, que não são 'filmes de sábado'.  Ficar vendo TV no sábado já é meio depressivo. Que dirá vendo um filme, o primeiro deles, em que uma protagonista grita de dor o filme todo?"  (Folha Ilustrada, 21/01/2012).
Adoro o fato de o Inácio Araújo saber ser erudito e não perder jamais o senso de realidade. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

No final

No final, ele estava completamente cego de um olho e o outro mal conseguia distinguir as coisas, mas, acho que pela idade avançada, ele via tudo.

Era curioso, e até certo ponto invejável, seu modo de vida: dormir, comer, andar e dormir. Praticamente vinte horas por dia dormindo, mas sempre que alguém se aproximava prontamente ele levantava, saudava a pessoa e ouvia o que ela tinha a dizer ou a oferecer. Mesmo que segundos depois voltasse a desabar em sonos profundos, era bom tê-lo por perto. E ainda vez ou outra ele te dava um conselho, e, merda, pode ter certeza, valia a pena seguir esse conselho.

Lembro que quando era garoto, lá pelos onze anos de idade, eu ia ao colégio no período da manhã, e ele, filho da puta, em plena idade e forma física, driblava uns obstáculos, pulava o muro de casa e me seguia por todo caminho até a escola. Algumas vezes até chegou a entrar no prédio! Eu morria de vergonha, e queria enforcá-lo, mas hoje acho graça e até tenho um pouco de orgulho de ter tido um cachorro assim.

Claro que ele era um vira-lata, um típico vira-lata. Daquele mesmo tipo que durante a noite puxava as roupas do varal e picava-as por todo quintal. Daquele que escavava buracos por todo jardim, que comia, literalmente comia, o jornal da manhã, que quando te via chegar em casa cansado, não cansava de pular, latir e fazer festa e abanava tanto o rabo que chegava a levantar poeira do chão. Um vira-lata peludo de cor branca com manchas marrons, que odiava banho e caçava passarinhos. Que era fiel a ponto de ficar na chuva comigo, em dias que eu precisava me molhar para clarear as ideias.

Por um certo tempo ele morou em um sítio. Nessa época ele ficou duro, virou um cachorro mau; eu juro que uma vez o vi brigando com um rottweiler e vencendo. Ele não gostava de estranhos por perto, latia e mordia sem dó. Talvez o mato tenha trazido seus instintos à flor da pele. Mas depois ele adoeceu e o trouxemos de volta para minha casa, e então ele voltou a ser o vira-lata malandro, totalmente revigorado e pronto para outra. E viveu assim por mais um bocado de anos.

Eu soube de sua morte apenas uma semana depois que ele havia partido. Não sei se fiquei triste, pois ele viveu sua vida plenamente, fazendo o que deu na telha, e morreu velho, vivido, em paz. Com certeza sorrindo, claro que sorrindo ao modo dos cachorros. Possivelmente deve ter deixado uns filhos por aí; quem sabe?

(Essa foi o Mateus que escreveu. E o Smurf, claro).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Indução programada

- E não voltou lá por quê? É romântico demais pra ir sozinho?
- Não, é que depois de chegar cansado no hotel não dá vontade mesmo.
- Hmm, e não voltou lá por quê? Porque ia se lembrar de quando fomos lá juntos e ia sentir minha falta o tempo todo?
- É, eu sei, hoje eu não tô romântico, tô faminto.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Beija-flor, flor

Aquela música que eu não consigo parar de ouvir, aquela dança que não sai da minha cabeça, as cenas e diálogos daquele filme que já decorei inteiro, aquela noite no vento, aquela noite na chuva, aquele cheiro que eu quero que grude em mim pra sempre, aquela pessoa que eu quero ter por perto o tempo todo, aquele restaurante onde eu quero ir comer toda semana, aquele livro que eu vou ler um mínimo por dia - só pra ter coisa boa pra ler durante muitos dias -, a ausência de fome, a ausência de sono, a vontade única de consumir tudo isso até gastar, até esgotar, até não ter mais graça e não sobrar nada além da memória de que isso existiu e eu amei, o que eu mais gosto na vida é me apaixonar.


domingo, 8 de janeiro de 2012

Beleza

5 conclusões acerca da beleza, obtidas por John Ruskin, algumas pra se considerar, outras nem tanto:

1) A beleza resulta de um complexo número de fatores que afetam a mente em termos psicológicos e visuais;
2) Os seres humanos têm uma tendência inata a ser suscetíveis à beleza e a desejar apropriar-se dela;
3) Há muitas expressões inferiores desse desejo de posse, e aí se incluem o desejo de comprar lembranças e tapetes, de inscrever o próprio nome em colunas e de tirar fotografias;
4) Existe apenas um modo de possuir a beleza corretamente, que é pela conscientização dos fatores- psicológicos e visuais- que são responsáveis por ela;
5) O modo mais eficaz de obter esse entendimento consciente é o esforço de descrever locais belos por meio da arte, pela escrita ou pelo desenho, independentemente de termos ou não qualquer talento para tal.

(editado de Botton, Alain de. A arte de viajar, Rocco, p. 232)
Tem muita gente por aí dizendo que arte não é difícil e, se John Ruskin estivesse vivo, provavelmente seria um desses incentivadores. Beleza, pra mim, é extremamente pessoal e eu acho super perigoso falar que todo mundo tem que desenhar, cantar, fazer arte, porque da mesma maneira que cada um vê  beleza em coisas específicas, incentivos aleatórios têm o poder estranho e imediato de limitar a autocrítica. São proferidos por opiniões pessoais isoladas e geralmente motivadas por afeto, sem qualquer pensamento mais aprofundado.

Resultado: muita besteira é posta em circulação todo dia, porque entusiastas mais empolgados acham que um incentivo legitima a necessidade da publicação. Morro de vergonha. Toda forma de arte permite que várias pessoas simplesmente se divirtam com ela e que poucas pessoas consigam produzí-la; ou talvez eu veja isso pela perspectiva oposta, que é justamente o excesso de autocrítica.

Sempre haverá pessoas capturando imagens lindamente, tirando máximo proveito da luz, da cor, movimento e foco, e sempre haverá as que se esforçam, mas mal conseguem uma imagem que seja publicável no fb ou num jornal regional. E descobrir o engano depois de um tempo é muito mais doloroso do que um espontâneo "olha, acho melhor você estudar mais ou procurar outra coisa", dito em boa hora.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Chegou a Salvação





Futurismo, corporativismo, regressão no tempo, vida após a morte, sociedade consumista e telepatia. Morte e Salvação. Narrativa tecida com moedas, sprays, embalagens de cigarro, degeneração física e bilhetes que pensam que ajudam, mas só atrapalham.

É simplesmente inútil elencar tudo o que compõe Ubik, mas é extasiante ver como PKD amarra isso tudo brilhantemente em uma história tão divertida, com personagens incomparáveis. A solução pra todos os problemas já foi inventada e muitos poderiam considerá-la uma piada, mas não se enganem, ela é bastante cara e está sempre em falta no mercado.

Leiam, é de gritar.