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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Breve estudo sobre marcas de interação relutante

Dados coletados a partir de diálogos entre os mesmos falantes, em dias, locais e horários aleatórios, para possível estudo sociolinguístico.
As iniciais foram trocadas para preservar a identidade dos falantes.

(1)
BF: - Nunca vi esse filme, como é?
MZ: - Antigo.

(2)
BF: - Ah, a garrafa não é tão pequena assim, quantos mililitros vêm?
MZ: - Poucos.

(3)
BF: - Adoro suas camisetas, onde você compra?
MZ: - Na loja.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Os Maias

Também conhecido como "Os Malas" pelos vestibulandos bocós que precisam destes trocadilhos para aguentar o tranco.
Escrito por Eça de Queirós, é desses livros que há muito tempo estavam na minha lista de "preciso ler" - finalmente rolou e o terminei nessa noite. Nem conseguia dormir depois, porque eu não queria ter terminado, queria que durasse pra sempre, não queria devolver na biblioteca, queria jantar no Ramalhete e ser da turma do Carlos da Maia e do pedante do Ega. Esnobes, egoístas, arrogantes, insuportáveis, mas que sabiam se divertir. E o livro tem piadas! E também é engraçado em momentos infames!

Há muito tempo um livro não me comovia tanto e não me dava vontade de gritar em alguns de seus momentos. Grande parte da referência cultural e social europeia do século XIX está ali (adoro século XIX) num retrato daquela que talvez tenha sido a última década em que a humanidade se entusiasmou com o mundo.

O primo Basílio? O crime do padre Amaro? É este Eça que deveriam nos dar para ler na escola. Sim, eu sei que seria impossível pedir que os alunos lessem um romance português tão extenso, etc, mas o fato é que Os Maias é incomparável, rico e delicioso em cada detalhe. As frequentes descrições que Eça adora escrever estão todas lá, os estrangeirismos, a excitação do século XIX, que sintetizava o mundo na palavra "progresso", os tipos e personagens únicos, a filosofia, as trivialidades e a as preocupações teóricas. Eça era um engajado em sua causa - conseguia estudar, digerir e pôr em prática as grandes propostas de sua época em sua obra. Como não vê-lo diluído e dissipado nas vozes de Ega, Alencar e Carlos? Como não simpatizar com o expoente máximo do realismo português que, ainda assim, se ressente e se expõe como herdeiro eterno do romantismo, no evidente diálogo final entre Carlos e Ega?

Tenho que amar o Eça depois disso.
Meeeu, Os maias...




"Não sei se ela ainda se lembra de uma boneca que eu lhe dei, que falava, dizia 'Napoleón'... Era no tempo do Império, até as desavergonhadas das bonecas eram imperialistas!" (p.481)

"Você alcança deste modo a coisa que mais se apetece neste nosso século XIX - a irresponsabilidade!... E depois para a sua família não é vergonha, porque você não tem família. Em resumo, convém-lhe?" (p.436, ed. Círculo do Livro)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Do estágio

"Considerando as experiências que já tive como professora, vejo o atual momento do Christian como extremamente precioso; são momentos assim que podem fazer uma pessoa descobrir muito sobre si mesma e sentir prazer com essa descoberta de algo que nem sabia existir dentro dela. Pedagogicamente, o entusiasmo seria o momento em que grandes feitos seriam obtidos através da dedicação e interesse que o aluno está oferecendo; é o momento em que ele se entrega totalmente, por vontade própria. Penso que o professor que não alimenta essa entrega comete um crime ideológico, pois não só desilude emoções sinceras que ele mesmo conseguiu despertar, como também acaba por conduzir este aluno a um caminho de apatia do qual será muito mais difícil retirá-lo em uma segunda abordagem."

Trecho do meu relatório de estágio deste semestre. Acho que está ruim, sei lá... não tô gostando. Quanto mais eu leio, mais eu quero escrever, mas não quero mudar aquilo que escrevi no calor da hora.

O que fica de mais um estágio em escola pública? Muito. Aluno de faculdade que volta pra casa dizendo que isso não acrescentou nada à formação dele, certamente entrou na escola decidido a enxergar nada ou faz tal afirmação para facilitar suas escolhas futuras.

sábado, 16 de maio de 2009

BCSP em Jundiaí

Balé da Cidade de São Paulo em Jundiaí. De graça. Só pode significar uma coisa: Deus existe.



Hoje às 19h00, no Polytheama. Vejo vocês lá.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Realidade

Hoje estou meio eufórica por ter tido um dia extraordinário e por ter percebido que se tratava de um dia incomum enquanto ele ainda acontecia. Não vou corrigir os possíveis erros desta entrada agora, talvez nem mais tarde eu faça isso - apenas vou escrever sobre o dia de hoje antes que ele se perca inteiro dentro de mim e eu já não consiga mais distinguí-lo.
Hoje eu saí de casa bem cedo, fui para a faculdade, entreguei todos os trabalhos antes do prazo (!) e fui uma aluna incrível mas matei metade da aula para ir a uma entrevista de emprego em um lugar bacana; suei, fui contratada; suei, andei de ônibus, andei a pé, aceitei ajuda de estranhos, pedi ajuda a estranhos, me perdi e me achei.



Hoje eu voltei pra casa e estudei por várias horas. Dei aula a tarde toda. Planejei a próxima semana e o restinho desta.
Hoje fiquei feliz porque um amigo está se apaixonando e parece estar sendo correspondido. E fiquei feliz porque estou aprendendo um novo idioma, estou estudando, pensando, dançando como uma louca sedada e não me sobra tempo para arrumar meu armário. Não me sobra tempo para pensar bobagens, apenas para falar, hihihi...
Simplesmente não me sobra tempo e não estou preocupada, não quero que sobre, não permito que sobre.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Em busca do homem perdido

Essa postagem tem tudo para se tornar muito longa. Farei o possível para que isso não aconteça e não afaste você, leitor, de mim. Vamos lá.

*

Alguns anos atrás, o Orange Prize for Fiction pediu a 1.900 mulheres do Reino Unido que escolhessem o homem que representaria o encontro perfeito para elas. Super Homem conquistou o 3°lugar, James Bond ficou em 2° e, liderando os níveis de estrogênio, Sr. Darcy. Mais ou menos na mesma época, perguntaram às mulheres quem elas convidariam para um jantar e o Sr. Darcy venceu novamente (James Bond ficou em quarto e o Super Homem não recebeu convites).

Uma pesquisa australiana mais recente, cuja fonte ainda não consegui localizar, mostrou que 8 entre 10 mulheres preferem o Sr. Darcy ao Brad Pitt.

Tendo isso em mente, acho interessante pensar que:
1) Sr. Darcy é protagonista de um dos maiores romances ingleses, Orgulho e Preconceito (no original, Pride and Prejudice), escrito por Jane Austen em 1813. Virou uma série de sucesso da BBC em 1995 e um filme belíssimo em 2005.

2) De 1813 a 2009, muitos anos de fascínio. Porém, como não se subestima o poder de um clássico, essa credibilidade serve como tese, mas não como antí-tese. Tipo, não dá pra dizer que tem alguém tentando forjar o fascínio que ele exerce.

3) É totalmente aceitável que o Sr. Darcy afete mulheres do Reino Unido, mas é no mínimo estranho pensar que essa atração atravesse todo o globo e alcance a Austrália. Além de mim, quantas brasileiras amam o Sr. Darcy? Quantas latino americanas? Etc.

4) Mais estranho ainda é saber que o Sr. Darcy é uma personagem. Tá certo que, em matéria de acessibilidade, o Brad Pitt é tão personagem quanto o Darcy, mas não é assustador ver mulheres (muitas mulheres) preferindo uma personagem de ficção a um ser humano?

Ocorre que as personagens que a Jane Austen criou são magníficas. Quem lê torce por elas e as acompanha com fervor, desejando intensamente que elas existam e/ou que sejam suas amigas. Não permitimos que alguém fale mal delas e chegamos ao ponto de pensar que, na verdade, são criações nossas e não podem pertencer a mais ninguém.

E o Sr. Darcy... ah, o Sr. Darcy é simplesmente demais. Possivelmente a personagem mais perfeita e cativante de Austen (bem como da literatura mundial), o Sr. Darcy é bonito, inteligente, gélido e lacônico; é rico e arrogante, mas não por presunção e sim porque é sincero ao extremo e está comprometido com sua própria felicidade. Como se não bastasse, é generoso, pungente, decidido e, imagine, está solteiro.

Siiiiim, casamento é um negócio, um expediente que confere eletricidade aos romances da Jane; é o século XVIII e a ambição máxima da mulher nessa época, meus caros, é se casar. Nesta sociedade, a posição e segurança máximas que uma mulher pode obter resumem-se a um lar que seja tão seguro quanto o de sua família e ao respeito que o nome de seu marido transferirá ao nome de seu pai - enfim, é uma troca que deve ser equivalente e minimamente compensatória, mesmo que não haja amor. Em uma das cenas do filme, uma mocinha diz à outra: "Não ouse julgar meu casamento [patético], nem todos podem se dar ao luxo de serem românticos".

Se, no entanto, a mocinha da história não faz do casamento sua razão de existir, a narrativa cresce. Se ela tem seu orgulho ferido pelo homem por quem se sente atraída, os sentimentos contraditórios temperam a história. Mas se a mocinha recusa uma proposta de amor e casamento e o homem, despedaçado, é obrigado a engolir em seco, o leitor já está mais do que aflito para que eles finalmente se entendam. Com essa receita, quem consegue não amar Elizabeth Bennet e o Sr. Darcy e tudo aquilo que um acrescenta ao outro? Quem não quer ser como eles? Quem não quer que eles existam? É escapismo, sem dúvida, mas se você puder escolher entre Elizabeth, Darcy, Cinderela, Ulisses ou Brad Pitt, Angelina, Rodrigo Santoro, Gisele, enfim, um ser humano, é absolutamente compreensível que você prefira as personagens de ficção, pois elas te oferecem tudo aquilo que a realidade jamais oferecerá. Estou prestes a dizer algo doloroso, porém verdadeiro: a ficção pode não te agradar sempre, mas ela nunca te abandona.