*
Alguns anos atrás, o Orange Prize for Fiction pediu a 1.900 mulheres do Reino Unido que escolhessem o homem que representaria o encontro perfeito para elas. Super Homem conquistou o 3°lugar, James Bond ficou em 2° e, liderando os níveis de estrogênio, Sr. Darcy. Mais ou menos na mesma época, perguntaram às mulheres quem elas convidariam para um jantar e o Sr. Darcy venceu novamente (James Bond ficou em quarto e o Super Homem não recebeu convites).
Uma pesquisa australiana mais recente, cuja fonte ainda não consegui localizar, mostrou que 8 entre 10 mulheres preferem o Sr. Darcy ao Brad Pitt.
Tendo isso em mente, acho interessante pensar que:
1) Sr. Darcy é protagonista de um dos maiores romances ingleses, Orgulho e Preconceito (no original, Pride and Prejudice), escrito por Jane Austen em 1813. Virou uma série de sucesso da BBC em 1995 e um filme belíssimo em 2005.
2) De 1813 a 2009, muitos anos de fascínio. Porém, como não se subestima o poder de um clássico, essa credibilidade serve como tese, mas não como antí-tese. Tipo, não dá pra dizer que tem alguém tentando forjar o fascínio que ele exerce.
3) É totalmente aceitável que o Sr. Darcy afete mulheres do Reino Unido, mas é no mínimo estranho pensar que essa atração atravesse todo o globo e alcance a Austrália. Além de mim, quantas brasileiras amam o Sr. Darcy? Quantas latino americanas? Etc.
4) Mais estranho ainda é saber que o Sr. Darcy é uma personagem. Tá certo que, em matéria de acessibilidade, o Brad Pitt é tão personagem quanto o Darcy, mas não é assustador ver mulheres (muitas mulheres) preferindo uma personagem de ficção a um ser humano?
Ocorre que as personagens que a Jane Austen criou são magníficas. Quem lê torce por elas e as acompanha com fervor, desejando intensamente que elas existam e/ou que sejam suas amigas. Não permitimos que alguém fale mal delas e chegamos ao ponto de pensar que, na verdade, são criações nossas e não podem pertencer a mais ninguém.
E o Sr. Darcy... ah, o Sr. Darcy é simplesmente demais. Possivelmente a personagem mais perfeita e cativante de Austen (bem como da literatura mundial), o Sr. Darcy é bonito, inteligente, gélido e lacônico; é rico e arrogante, mas não por presunção e sim porque é sincero ao extremo e está comprometido com sua própria felicidade. Como se não bastasse, é generoso, pungente, decidido e, imagine, está solteiro. Siiiiim, casamento é um negócio, um expediente que confere eletricidade aos romances da Jane; é o século XVIII e a ambição máxima da mulher nessa época, meus caros, é se casar. Nesta sociedade, a posição e segurança máximas que uma mulher pode obter resumem-se a um lar que seja tão seguro quanto o de sua família e ao respeito que o nome de seu marido transferirá ao nome de seu pai - enfim, é uma troca que deve ser equivalente e minimamente compensatória, mesmo que não haja amor. Em uma das cenas do filme, uma mocinha diz à outra: "Não ouse julgar meu casamento [patético], nem todos podem se dar ao luxo de serem românticos".
Se, no entanto, a mocinha da história não faz do casamento sua razão de existir, a narrativa cresce. Se ela tem seu orgulho ferido pelo homem por quem se sente atraída, os sentimentos contraditórios temperam a história. Mas se a mocinha recusa uma proposta de amor e casamento e o homem, despedaçado, é obrigado a engolir em seco, o leitor já está mais do que aflito para que eles finalmente se entendam. Com essa receita, quem consegue não amar Elizabeth Bennet e o Sr. Darcy e tudo aquilo que um acrescenta ao outro? Quem não quer ser como eles? Quem não quer que eles existam? É escapismo, sem dúvida, mas se você puder escolher entre Elizabeth, Darcy, Cinderela, Ulisses ou Brad Pitt, Angelina, Rodrigo Santoro, Gisele, enfim, um ser humano, é absolutamente compreensível que você prefira as personagens de ficção, pois elas te oferecem tudo aquilo que a realidade jamais oferecerá. Estou prestes a dizer algo doloroso, porém verdadeiro: a ficção pode não te agradar sempre, mas ela nunca te abandona.





