sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

No final

No final, ele estava completamente cego de um olho e o outro mal conseguia distinguir as coisas, mas, acho que pela idade avançada, ele via tudo.

Era curioso, e até certo ponto invejável, seu modo de vida: dormir, comer, andar e dormir. Praticamente vinte horas por dia dormindo, mas sempre que alguém se aproximava prontamente ele levantava, saudava a pessoa e ouvia o que ela tinha a dizer ou a oferecer. Mesmo que segundos depois voltasse a desabar em sonos profundos, era bom tê-lo por perto. E ainda vez ou outra ele te dava um conselho, e, merda, pode ter certeza, valia a pena seguir esse conselho.

Lembro que quando era garoto, lá pelos onze anos de idade, eu ia ao colégio no período da manhã, e ele, filho da puta, em plena idade e forma física, driblava uns obstáculos, pulava o muro de casa e me seguia por todo caminho até a escola. Algumas vezes até chegou a entrar no prédio! Eu morria de vergonha, e queria enforcá-lo, mas hoje acho graça e até tenho um pouco de orgulho de ter tido um cachorro assim.

Claro que ele era um vira-lata, um típico vira-lata. Daquele mesmo tipo que durante a noite puxava as roupas do varal e picava-as por todo quintal. Daquele que escavava buracos por todo jardim, que comia, literalmente comia, o jornal da manhã, que quando te via chegar em casa cansado, não cansava de pular, latir e fazer festa e abanava tanto o rabo que chegava a levantar poeira do chão. Um vira-lata peludo de cor branca com manchas marrons, que odiava banho e caçava passarinhos. Que era fiel a ponto de ficar na chuva comigo, em dias que eu precisava me molhar para clarear as ideias.

Por um certo tempo ele morou em um sítio. Nessa época ele ficou duro, virou um cachorro mau; eu juro que uma vez o vi brigando com um rottweiler e vencendo. Ele não gostava de estranhos por perto, latia e mordia sem dó. Talvez o mato tenha trazido seus instintos à flor da pele. Mas depois ele adoeceu e o trouxemos de volta para minha casa, e então ele voltou a ser o vira-lata malandro, totalmente revigorado e pronto para outra. E viveu assim por mais um bocado de anos.

Eu soube de sua morte apenas uma semana depois que ele havia partido. Não sei se fiquei triste, pois ele viveu sua vida plenamente, fazendo o que deu na telha, e morreu velho, vivido, em paz. Com certeza sorrindo, claro que sorrindo ao modo dos cachorros. Possivelmente deve ter deixado uns filhos por aí; quem sabe?

(Essa foi o Mateus que escreveu. E o Smurf, claro).

2 comentários:

Mateus Henrique Zanelatti disse...

Coitado do Smurf!

bella ferraro disse...

^_^ ele tá no céu dos animais, com meu hâmster e meu periquito.