Ontem vi "O Artista" pela segunda vez. Apesar de toda a atenção que o filme já recebeu e sei lá quantos prêmios, eu tenho que recomendá-lo.
Não é uma ficção muda, porque cada atuação e cada registro escrito do filme gritam a realidade do cinema e dos Estados Unidos (anos 20 e 30, quebra
da Bolsa, etc) em alto e bom som nos ouvidos de quem assiste. Clichês sem fim, todos eles reunidos; e muitas, muitas mensagens subliminares e de duplo sentido (uma das minhas favoritas: "Geroge, we need to talk").
Não é uma história sobre o vencedor, e sim sobre o vencido. "Cantando na chuva" já tinha discutido o momento da transição dos dos filmes mudos para os falados, mas só mostrou os atores que conseguiram se adaptar ao novo formato; como ficou a vida dos atores que foram pra sarjeta porque não conseguiram ou porque se recusaram a alterar sua arte? Legal alguém ter olhado para o outro lado, né?
Não é um filme, é uma crítica com o roteiro mais sólido dos últimos tempos. Para além do caráter artesanal, por que alguém faria um filme mudo e p&b hoje, se temos técnicas tão celebradas de som e 3D? É isso o que "O Artista" pergunta e responde. E o irônico é que ele tem muito a dizer.
Afinal, como uma mensagem pode ser transmitida? Palavras a fazem mais
efetiva? É possível que o silêncio consiga expressar mais do que a fala?
O silêncio potencializa a arte?
Só tenho certeza de que o p&b potencializa a beleza e a sensualidade de tudo nessa vida, porque a fotografia deste filme é um show à parte. Outra certeza é que a atuação do cachorro não só é extremamente simbólica como faz toda a diferença no filme e na ideia de (in) comunicabilidade que ele discute - o cachorrinho é a única personagem do filme que não tem os canais de comunicação entupidos.
Dialética da vida, pode ser que apenas no silêncio surja a necessidade real de falar. Em 2012, "podemos não falar o que queremos, mas certamente a gente só escuta o que quer", como tuitou Laerte Coutinho. Em meio a muitos que falam muito sem dizer nada e quando quase tudo o que se fala pode ser mal-interpretado, gerar processo e até cadeia, repensar as barreiras comunicativas e sonoras foi uma das maiores sacadas d' "O Artista", já que outra oposição assombrosa é esta que te faz entender melhor o presente quando você olha pro passado.


2 comentários:
Não assisti, mas se tem cachorro num papel legal estou dentro =)
Assiste comigo?
Claro que assisto :D
Fica em cartaz até sexta em Campinas; em SP acho que fica um pouco mais... volta depressa!
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