O verbo não é transitivo, ele está transitivo, você gostava de dizer. Você tinha as normas todas na cabeça e na língua, verbalizava tudo com maestria e me negou um dez quando eu não quis fazer uma mesóclise, Bia, tenha dó. Daí você vinha dizendo que achava o máximo os brasileiros que usam o tu conjugado como 3a pessoa do singular, em presente, passado ou futuro, "a língua portuguesa é o uso que a gente faz dela", aham, falou. Só você nessa cidade conseguia esquematizar a redução da metáfora linguística, a qualquer momento, pra qualquer aluno besta que se atrevesse a te desafiar e isso era enlouquecedoramente lindo.
Você achava graça quando alguém te dava a resposta certa apesar de não saber te justificar a escolha; dizíamos que era porque soava melhor ou porque ficava mais bonito e você respondia que isso de sentir a língua era inestimável, apesar de parecer velhacaria.
Você fazia uso maciço do estilo boyfriend muito antes de isso ser moda, quando todo mundo te enchia dizendo que você tinha ido pra escola com uma calça e uma camisa do seu marido. Você cantarolava "Otherside" dos Chili Peppers enquanto a sala tava em silêncio, porque estávamos cravados no ano 2000 e porque você também assistia MTV - mas assistia porque era descolada por natureza, e não pra fazer pose. Você não vivia sem chiclete, não usava maquiagem, adorava viver, estava bem no meio da balança e eu adorava te ver sendo mãe, mulher e moderna. E torcendo pro Ponte Preta, só Deus sabe por quê. E pedindo pra tocar Abba. E fazendo rima até com as letras das questões de múltipla escolha.
Desde que tudo acabou eu penso em você e logo invoco o Guimarães Rosa, citando pra mim mesma que as pessoas não morrem, elas ficam encantadas. Mas hoje e nos últimos dias pensei tanto em você e senti tanta saudade que só consigo te deixar transitiva com o Mia Couto: morto bem amado nunca pára de morrer.


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