segunda-feira, 28 de julho de 2008

Injeção na testa


QOTSA, "In my head"

A nova coreografia da companhia de dança é um fado. Eu nunca tinha ouvido esse tipo de música e nem sabia nada sobre ele; fui convidada pra participar quando a montagem já estava mais ou menos na metade, ou seja, cheguei só pro oba-oba. Mas como esses fatos pessoais são muito chatos, vou passar logo àquilo que motivou a postagem.
Ao longo dos ensaios, a música começou a soar muito mais árabe do que portuguesa, talvez por ser um fado mais moderno, passional e 'pervertido'. O professor achou uma boa idéia pesquisar a influência árabe em Portugal, porque, sim, a dança também tem que ter uma preocupação mínima com as idéias por trás daquilo que pretende mostrar.
E o mais incrível é que Portugal renega uma herança árabe incontestável - os mouros ocuparam a Península Ibérica por oito séculos, como não teriam despejado elementos de sua cultura e de sua língua entre Portugal e Espanha? O tempo todo eu só encontrei artigos que falavam coisas do tipo "isso veio da exploração árabe, mas não precisamos nos envergonhar, porque essa mesma experiência foi vivida na colonização de todos os países...", etc. Parece que para eles Portugal só passa a existir quando os mouros são finalmente expulsos e sua marinha se lança a mares nunca dantes navegados (para, agora sim, dominar, e não mais ser dominado).
O que me chama a atenção, pensando agora em nós, é como nos resolvemos muito melhor com essa questão da influência. Portugueses chegam aqui e dizem que nossa língua será a portuguesa, a religião oficial será a católica e os doces precisam de muito mais ovo em seu preparo - pra nós, tudo bem. Africanos escravizados chegam logo depois, mostrando que é uma delícia misturar todas as sobras de carne no feijão; a capoeira é nossa herança africana, que legal, o Brasil não tem problema nenhum em reconhecer essas coisas (isso porque uma herança que resultou de anos de escravidão deveria causar muito mais vergonha do que orgulho; nos apropriamos da herança do dominado, se fôssemos portugueses estaríamos perto do suicídio). Mesmo assim, acho que me sinto grata por viver em um país que aceita todas as heranças - não deixa de ser um impulso, enquanto que negar seu passado, vocês sabem, é a maneira mais segura de viver aprisionado nele.

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