sábado, 26 de abril de 2008

Boas intenções que escapam pelos dedos

Para conceder liberdade provisória a três jovens detidos sob a acusação de praticar crimes pela internet, um juiz federal do Rio Grande do Norte determinou uma condição inédita: que os rapazes leiam e resumam, a cada três meses, dois clássicos da literatura.
As primeiras obras escolhidas pelo juiz Mário Jambo, 49, foram "A hora e a vez de Augusto Matraga", conto de Guimarães Rosa (1908-1967), e "Vidas Secas", de Graciliano Ramos (1892-1953).
Os acusados Paulo Henrique da Cunha Vieira, 22, Ruan Tales Silva de Oliveira, 23, e Raul Bezerra de Arruda Júnior, 30, foram liberados no dia 17, após nove meses presos por envolvimento na Operação Colossus, da Polícia Federal.
Folha de São Paulo, 23 de abril de 2008.

Juiz interessante, não só pela penalidade inusitada que decidiu aplicar, mas também pelos títulos poderosos que selecionou logo de cara - se ele realmente quisesse penalizar os meninos, deveria escolher os títulos da lista unificada dos vestibulares da Fuvest/Unicamp, porque os açoites estão todos lá: Iracema, Auto da barca do inferno e Memórias de um sargento de milícias (que é um bom livro, mas sempre foi difícil e chaaato pra mim).
Os acusados têm de fazer relatórios de punho próprio sobre as leituras (claro, bem distantes do computador). De qualquer forma, alguém vai baixar resumos das obras e entregá-los para os Robin Hood's; até as bibliotecas municipais têm livros com resumos de livros hoje em dia. Resguardemos as devidas proporções, mas é simplesmente muito fina a linha entre legalidade e ilegalidade, seja na hora de trapacear com as provas de literatura, seja no roubo de senhas bancárias pela internet.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Insensível

Tá certo, o terremoto no Brasil, então. Não senti nada e duvido que alguém, aqui em Jundiaí, tenha sentido.
Lá pelas 9h30, hoje, no trampo:
Bella: - Mas algum de vocês sentiu alguma coisa?
R.: - Ô! O L. mora em Campinas e tava falando agora pra gente... foi até que feio o negócio.
C.: - Eu tava na cozinha e meu filho veio me chamar, dizendo que a estante da sala tava se mexendo sozinha.
Bella: - Mas foi mais ou menos em que hora que isso aconteceu?
R.: - Umas nove da noite...
C.: - Oito e quarenta...
R.: - Na hora eu não percebi, mas depois que começaram a falar, eu lembro de ter sentido uma tontura mais ou menos nesse horário.
Bella: - Gente, eu não vi nada se mexer, nem senti nada. Nessa hora eu tava no sofá da sala e...
P.: - Eu senti um tremor, mas não sei muito bem se foi do terremoto ou de outra coisa que eu tava fazendo...
(as iniciais também foram trocadas, para preservar a identidade das pessoas, etc, etc...)
A conversa se estendeu por um tempo razoável e eu queria me lembrar das aulas de física, para saber se morando em um lugar alto minhas chances de sentir abalos sísmicos são maiores ou menores. Vi, nos jornais daqui, fotos de criancinhas chorando, assustadas, mas não consigo me convencer - tremor, pra mim, é estar no viaduto (ou "complexo viário", como eles gostam de chamar) de Várzea Paulista às 18h00, repleto de carros se espremendo em uma estrutura que a qualquer momento vai arriar.

domingo, 20 de abril de 2008

Nos vemos mais tarde

"Nós somos muito mais do que um", diz Fernando Pessoa. Isso pode ficar muito bonito na poesia e na literatura em geral, através do narrador esquizofrênico ou mesmo dos heterônimos líricos do Pessoa (Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro, pra citar os principais): a necessidade de expandir sua natureza em várias personalidades, porque só uma voz não dá conta daquilo que você é, preso em uma matéria física única.
Pessoa é esquizofrênico profissional - ele consegue veicular cada uma de suas vozes adicionais e também sua voz original (se é que essa é mesmo a original...). Ele finge, convence e, de quebra, faz uma poesia de primeira.
O que complica é esse lance existir também fora da literatura. Concordo com a frase lá de cima, realmente acho que cada um é vários, que dá para viver a vida inteira com uma pessoa e nunca chegar a conhecê-la de fato; posso ser uma delicadeza no trabalho, mas uma peste em casa e alguém poderia prontamente me rotular de 'mascarada'. Ou quando uma pessoa se queixa de que o relacionamento acabou porque "a máscara finalmente caiu".
Mas isso não é um artifício. Nem é algo intencional, que revele muito sobre a honestidade de alguém. Não é ser 'duas-caras'. Pra mim é um remédio, é um jeito de respirar mais confortavelmente, um jeito de sair de cena e descansar de mim mesma por alguns instantes - e também de poupar os outros de mim, porque poucas pessoas merecem as neuroses de outras.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Especialização coisa nenhuma


Uma entrada super breve, só para não deixar passar batido o aniversário do senhor Leonardo da Vinci (dispensa links, não é mesmo?), um dos maiores gênios multitarefa que a humanidade já concebeu, numa época em que ele não tinha um computador ou telefone celular em mãos para ajudá-lo a administrar sua vida - e, mesmo assim, conseguia ser exímio estudioso, cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, músico e escritor.
Há quem diga que ele era um dos extraterrestres que ficaram vagando pela Terra após a construção do Egito; e há quem o utilize como pano de fundo de uma narrativa (pseudo) codificada e vulgar - o supra sumo daquilo que o homem contemporâneo consegue fazer com uma influência grandiosa sobre sua cabeça.
Agora de volta ao trabalho, porque eu também sou multitarefa, mas estou muito longe da genialidade.

sábado, 12 de abril de 2008

Das coisas que os olhos vêem

A decadência do Ocidente não é novidade há tempos.
Também há tempos, costumávamos ouvir que o Oriente sim era a esperança do mundo, que fulano trocou o oeste pelo leste, virou budista e hoje é feliz - nichos de um Oriente também caído, basta pensar nas batalhas intermináveis entre o pessoal do Oriente Médio, ou mesmo nos monges rebeldes do Tibete, na miséria econômica assustadora de alguns países e nas inúmeras restrições nas áreas de educação e saúde em certas partes do mundo onde a palavra globalização parece não fazer qualquer sentido.
Ler o mundo em termos de ocidente/oriente, em nosso contexto contemporâneo, deve ser geograficamente precário. Mas será que dá para desconsiderar essa dicotomia ao ler uma simples notícia local, como a do bebê indiano que nasceu com dois rostos? (clique aqui para a reportagem completa).
Se fosse no Brasil, ou (suponho) em qualquer lugar do mundo ocidental, esse bebê estaria passando de médico em médico e dinheiro seria arrecadado para inúmeras cirurgias que poupariam à criança Lali o apelido de aberração, bem como outras marginalizações.





Porém, estamos falando da Índia. Se aqui as células-tronco, exames e intervenções pré-natais são tecnologias celebradas, a mãe de Lali não vê motivos para fazer sequer uma tomografia computadorizada em sua filha - afinal de contas a garotinha está bem, respirando normalmente, bebendo leite pelas duas bocas, abrindo e fechando seus quatro olhos ao mesmo tempo.
Mais do que isso, Lali está sendo considerada um presente de Deus para sua vila: um templo será construído em sua homenagem e, enquanto isso não acontece, as pessoas fazem fila para tocar seus pés e lhe oferecer orações todos os dias, já que muitos a vêem como reencarnação da deusa Durga, divindade que é sempre retratada com vários olhos e braços, na arte indiana.
O mundo é um só, a miséria é a mesma e os problemas são parecidos, mas o Ocidente nunca demonstrou - e nem demonstrará - esse grau de espiritualidade. Queremos dizer que isso é ignorância, egoísmo, etc; porém, o que me deixa mais aflita é ver o esforço que eu tenho que fazer para tentar entender o olhar deles sobre essa história e questionar minha própria sensibilidade.
Não é difícil?

terça-feira, 8 de abril de 2008

Lirismo sem volta

Tenho ouvido bastante a trilha sonora do filme Na natureza selvagem.
Ainda não assisti, só sei que é baseado em um romance (típico...) sobre a história real de um estudante que, após doar todas as suas posses, dá as costas à sociedade e sai vagando pelo mundo, sem nunca mais voltar pra casa e morrer de fome no Alasca (literalmente).
De qualquer maneira, é provável que eu goste mais do filme assim, ou seja, gosto do modo como ele vem à minha cabeça só pelas 11 canções do álbum, composto quase totalmente pelo Eddie Vedder (sim, o vocalista do Pearl Jam).
É bom notar que estamos falando de um Eddie que não grita e nem se descabela nessas músicas absurdamente curtas e simples, quase folclóricas; o que rola é um rock bem cru, mas com instrumentos diferenciados, como o banjo (tá, eu sei que o banjo parece intrínseco à Família Buscapé, mas ouça "No Ceiling", ou "Hard Sun", e depois me diga).
Acima de tudo isso está a beleza das letras, repletas daquelas mesmas idéias que temos quando saímos para trabalhar - e que parecem improváveis de se tornar música.
É mais um poeta trabalhando do que um músico explorando suas habilidades. Não é nem um pouco inovador, mas injeta no mundo da música comercial um tipo de lirismo que é simplesmente bonito, sem precisar de maiores justificativas.

O mundo é assim
Nunca dá para saber
Onde pôr sua fé
Nem como fazê-la crescer

Vou me levantar
Queimar qualquer sonho escuro
Vou me levantar
E transformar erro em ouro.
Trecho da música "Rise", tradução minha.

domingo, 6 de abril de 2008

Cromofobia


Eu estava escolhendo as cores para o modelo do blog e gostei tanto do vermelho do título que pensei em aplicar mais tonalidades quentes em outras partes da página; depois de cinco segundos, eu achei que ficaria brega e comecei a fazer as estruturas restantes em uma escala de cinza. Quando vi o resultado, pensei no David Batchelor, artista britânico que tem horror à ausência de cor na arte contemporânea. Na verdade, sabemos que essa arte desbotada é mero reflexo social: as roupas, as casas, os carros, os móveis, os computadores e também os eletrodomésticos da classe média estão todos claros, chiques - qual dona de casa escolheria, hoje, uma geladeira vermelha, combinando com mesa e cadeiras em fórmica também vermelha, grande sucesso nos anos 70?
Batchelor desenvolveu o conceito de cromofobia neste livro, partindo de observações que ele fez não apenas sobre as cores utilizadas nas artes plásticas, mas também na literatura e até na música, sustentando a idéia de que encontra suas cores favoritas nas partes pobres das grandes cidades.
Essa afirmação me fez lembrar da Tarsila do Amaral, quando ela viajou por lugares pobres e simples do Brasil e ficou fascinada com as cores fortes que eles misturavam sem nenhum pudor. Voltou para casa e começou a aplicar muito amarelo, vermelho, azul e verde em suas telas da fase pau-brasil. Logo depois, os narizes críticos começaram a se torcer, acusando-a de mau gosto e de artista anti-estética.
"Ainda vemos a cor como falta de sofisticação", diz Batchelor. "Há grande resistência em ver seriedade no colorido".