A idéia desta postagem não é discutir se ultimamente está faltando trabalho no setor dos astrônomos Constantino Baikouzis e Marcelo Magnasco (Universidade de Rockefeller, NY). A dupla de cientistas publicou na revista PNAS do mês passado um trabalho em que recriaram o céu da noite em que Ulisses massacrou todos os pretendentes de Penélope, na obra Odisséia, escrita por Homero.
Siiiim, a dupla recriou o céu de um momento emblemático de... uma obra de ficção! Eu não sei o que vocês acham disso, mas eu fico emocionada: dados, provas e referências científicas mobilizados sob estudo rigoroso, para atestar que o momento macabro descrito por Homero não era pura inspiração, mas sim o relato de uma noite memorável para o povo grego.
Me empolguei porque quando você trabalha com produções de ciências humanas, você só tem teses, anti-teses e perspectivas de outros escritores para basear sua análise - ou seja, é sempre um trabalho subjetivo cíclico, parecido com as religiões que surgem quando alguém faz mais uma leitura diferente da Bíblia.
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Mas a Odisséia representa um tipo bem peculiar de literatura - aquele que se calca em fatos que um grupo de pessoas realmente vivenciou, misturado a fatos ficcionais. Assim, os dois cientistas descobriram que tal noite funesta realmente aconteceu em 16 de abril de 1178 a.C, quando um grande eclipse arremeteu o céu grego. 400 anos depois do evento, Homero escolheu a noite que realmente existiu como cenário para a vingança de Ulisses.
Mas por que Homero foi escolher logo um eclipse? Ainda mais um eclipse que havia ocorrido há 400 anos? Provavelmente pela relação cronológica íntima que povos anteriores à tecnologia da luz elétrica mantinham com o céu, como dizem os autores do estudo - olhar para o céu, estudar seus ciclos e assim marcar o tempo. Ou, também, pela relação mística que esses povos mantinham com o céu, morada dos deuses - afinal, "se os deuses podiam apagar o Sol por minutos, poderiam fazê-lo para sempre", de acordo com Marcelo Gleiser.
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"O Sol sumiu do céu e uma escuridão funesta cobriu tudo", escreve Homero, e os cientistas reforçam: "Com os cinco planetas visíveis a olho nu, a Lua e a coroa do Sol podiam ser vistos simultaneamente. Durante um eclipse, a temperatura sofre uma queda brusca de alguns graus, os ventos se alteram, os animais ficam inquietos e as faces humanas podem ficar com uma aparência empalidecida sob a luz azulada....". Arte e ciência juntas, executando um momento em que um livro deixa de ser apenas literatura para ser também fonte histórica, algo realista e poderoso, mas que pode ser facilmente perdido quando paramos de olhar para o céu.
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Se você nunca leu ou nunca ouviu falar da Odisséia, espero que tenha ficado curioso pela história de Ulisses (ou Odisseu, para os gregos), rei e protagonista da obra que para muitos inaugura a literatura ocidental - um clássico tão bruto e incontestável que dá para sentir o gosto de mármore só de se escrever sobre ele. É um livro que se encontra em toda biblioteca municipal (juro) e também em bancas de revista. Jundiaí é fraca de sebos, então vale usar o queridíssimo Estante Virtual. Só não escolha edições adaptadas, porque quem perde é você. Sugiro essa.
A dica do DivShare foi descaradamente roubada do Blog do Juca, o blog mais bem feito que já vi. Tem algum tempo que eu queria subir músicas para o blog, dentro ou fora da postagem, mas não sabia qual aplicativo servia para isso. Valeu, Juca, graças a você podemos ouvir "Ullyses", do Dead Can Dance, para ajudar a entrar no clima.



