terça-feira, 15 de julho de 2008

Do céu que mal se vê



A idéia desta postagem não é discutir se ultimamente está faltando trabalho no setor dos astrônomos Constantino Baikouzis e Marcelo Magnasco (Universidade de Rockefeller, NY). A dupla de cientistas publicou na revista PNAS do mês passado um trabalho em que recriaram o céu da noite em que Ulisses massacrou todos os pretendentes de Penélope, na obra Odisséia, escrita por Homero.
Siiiim, a dupla recriou o céu de um momento emblemático de... uma obra de ficção! Eu não sei o que vocês acham disso, mas eu fico emocionada: dados, provas e referências científicas mobilizados sob estudo rigoroso, para atestar que o momento macabro descrito por Homero não era pura inspiração, mas sim o relato de uma noite memorável para o povo grego.
Me empolguei porque quando você trabalha com produções de ciências humanas, você só tem teses, anti-teses e perspectivas de outros escritores para basear sua análise - ou seja, é sempre um trabalho subjetivo cíclico, parecido com as religiões que surgem quando alguém faz mais uma leitura diferente da Bíblia.

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Mas a Odisséia representa um tipo bem peculiar de literatura - aquele que se calca em fatos que um grupo de pessoas realmente vivenciou, misturado a fatos ficcionais. Assim, os dois cientistas descobriram que tal noite funesta realmente aconteceu em 16 de abril de 1178 a.C, quando um grande eclipse arremeteu o céu grego. 400 anos depois do evento, Homero escolheu a noite que realmente existiu como cenário para a vingança de Ulisses.
Mas por que Homero foi escolher logo um eclipse? Ainda mais um eclipse que havia ocorrido há 400 anos? Provavelmente pela relação cronológica íntima que povos anteriores à tecnologia da luz elétrica mantinham com o céu, como dizem os autores do estudo - olhar para o céu, estudar seus ciclos e assim marcar o tempo. Ou, também, pela relação mística que esses povos mantinham com o céu, morada dos deuses - afinal, "se os deuses podiam apagar o Sol por minutos, poderiam fazê-lo para sempre", de acordo com Marcelo Gleiser.

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"O Sol sumiu do céu e uma escuridão funesta cobriu tudo", escreve Homero, e os cientistas reforçam: "Com os cinco planetas visíveis a olho nu, a Lua e a coroa do Sol podiam ser vistos simultaneamente. Durante um eclipse, a temperatura sofre uma queda brusca de alguns graus, os ventos se alteram, os animais ficam inquietos e as faces humanas podem ficar com uma aparência empalidecida sob a luz azulada....". Arte e ciência juntas, executando um momento em que um livro deixa de ser apenas literatura para ser também fonte histórica, algo realista e poderoso, mas que pode ser facilmente perdido quando paramos de olhar para o céu.

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Se você nunca leu ou nunca ouviu falar da Odisséia, espero que tenha ficado curioso pela história de Ulisses (ou Odisseu, para os gregos), rei e protagonista da obra que para muitos inaugura a literatura ocidental - um clássico tão bruto e incontestável que dá para sentir o gosto de mármore só de se escrever sobre ele. É um livro que se encontra em toda biblioteca municipal (juro) e também em bancas de revista. Jundiaí é fraca de sebos, então vale usar o queridíssimo Estante Virtual. Só não escolha edições adaptadas, porque quem perde é você. Sugiro essa.


A dica do DivShare foi descaradamente roubada do Blog do Juca, o blog mais bem feito que já vi. Tem algum tempo que eu queria subir músicas para o blog, dentro ou fora da postagem, mas não sabia qual aplicativo servia para isso. Valeu, Juca, graças a você podemos ouvir "Ullyses", do Dead Can Dance, para ajudar a entrar no clima.

domingo, 6 de julho de 2008

Pornalize já



Pra descontrair um pouco, de um jeito que só a internet é capaz de fazer:

Meu nome de atriz pornô seria Baby Lovedoll. Para saber o seu, clique no link para homens ou para mulheres, como desejar. ^_~

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Da Bruxaria, vulgo Manipulação


Dor. Morte. Prova surpresa. Rejeição. Depilação. Dentista. Ciúmes. Decepção. Castigo. Doença. Vestibular. Pseudointelectuais.
Poucas coisas na vida conseguem ser mais chatas do que fãs alucinados do Alan Moore. Se não acredita, comprove por si mesmo, clicando em Comunidade Orkut - Alan Moore.

domingo, 22 de junho de 2008

Morte ou Nascimento?

É simplesmente patética essa discussão que está invadindo a mídia do país sobre qual o maior escritor da literatura brasileira, Machado de Assis ou Guimarães Rosa. Começou com a FLIP 2008 prestando tributo ao centenário de morte do Machado e decidindo fazer a festa toda para ele, ano em que também ocorre o centenário de nascimento de Guimarães Rosa. Agora, a discussão virou enquete promovida pelo jornal Folha de São Paulo, com direito a uma ilustração que retrata os escritores frente a frente, vestindo luvas de boxe. Parece aquele teste personalidade que esteve na moda há algum tempo - 5 minutos adiantado ou atrasado? piercing ou tatuagem? Beatles ou Rolling Stones? Palmeiras ou Corinthians? Coca-cola ou Pepsi? (Aí também não, né? Será que alguém escolhe a Pepsi?).
E hoje, para coroar a discussão, o suplemento Mais! faz a enquete para pessoas do calibre de Antonio Candido, entre outros críticos literários, artistas, enfim, esse povo relacionado à literatura nacional. E alguns deles realmente tomam partido! E alguns deles foram meus mestres e eu os respeitava! Que vergonha.

Memórias Póstumas de Brás Cubas é, para mim, muito melhor do que Dom Casmurro, mas também gosto muito de O Alienista, uma novela quase obscura do Machado. Grande Sertão: Veredas é um monumento, mas foi Primeiras Estórias que mudou minha vida. O que estou tentando dizer é que logicamente há preferências pessoais, mas não há como medir competência, genialidade, grandiosidade. Camões não me arrepia, Pessoa sim, mas esse tipo de sentimento jamais poderia servir de resposta, se me perguntassem qual deles é o escritor mais importante da literatura portuguesa e se eu fosse uma crítica literária minimamente profissional, que compreende a relevância do trabalho de um Camões, mesmo que ele não me comova. Enquetes e discussões desse tipo são pura banalização de todo o pensamento e beleza que esses dois escritores cristalizaram na nossa literatura - e, acreditem, ser bom de verdade não é tarefa fácil.

Por que precisamos eleger um "número 1"? Por que precisamos de um Shakespeare para colocar em um pedestal? Por que há sempre alguém pedindo para escolhermos algo? Ainda estamos falando daquela história das coisas que você levaria para uma ilha deserta? Bem, sinto informar que nós já estamos em uma ilha deserta e a boa notícia é que você pôde trazer tudo aquilo que queria. A má notícia é que nesta ilha as suas coisas favoritas não conseguem te satisfazer da mesma maneira.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Silêncio

"Todas as palavras boas estão pálidas de exaustão"


Victor Shklovsky
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quinta-feira, 12 de junho de 2008

Hã?

Tem sido difícil escrever, não tanto por falta de tempo quanto por falta de assunto mesmo. E isso é muito mais triste.
Basicamente, só tenho lido o jornal, mas não quero vir aqui para fazer releitura de notícias, sabe? Tem muitos sites por aí que nasceram pra isso e também tem muito material repetido e desnecessário na internet, Dó Maior não precisa contribuir com esse ciclo.

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O último filme que vi foi o novo Indiana Jones e acho que só eu e os meus amigos curtimos, ahahaha. Sei que o filme viaja forte em uns lances aí (e a deficiência na pesquisa e no respaldo geográfico são realmente toscas), mas eu particularmente gosto muito das teorias arqueológicas que justificam alguns eventos de civilizações antigas como obra conjunta de humanos e seres extraterrestres. É coisa complicada mostrar como múmias empoeiradas podem estar de mãos dadas a et's high-tech (porque pra nós, terráqueos, os et's serão sempre high-tech, seja em 1940, seja em 2008); mas já estava na hora de alguém fazer um filme que discutisse um pouco esse tema, fora do viés da ficção científica. Destaque para a atuação de John Hurt (o tirano do V de Vingança, lembram?), que rouba o filme e não divide com mais ninguém.

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Feliz dia dos namorados para todos aqueles que estão namorando. Manter relacionamentos não é nada fácil, tenho admiração pelos casais que conseguem cultivar suas vidas, suas intimidades e suas particularidades com a pessoa que escolheram, não importa por quanto tempo.
Beijo pra você, Ricardo, foi bonito enquanto durou.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Rolês do ensino

Às vésperas de começar um novo curso de aulas particulares de inglês para um aluno, me vejo verdadeiramente entusiasmada com todas as opções e com toda a liberdade que tenho em mãos.
Primeiro porque é uma pessoa que já estudou comigo durante um tempo considerável, mas seguindo o método de uma escola que já sofreu desgaste, para ele e para mim.
Segundo porque partiremos de um estágio de aprendizado bem interessante e, assim, me sinto tentada a fazer uso de método nenhum e, ao mesmo tempo, de todos. Aulas particulares tendem a ficar cansativas mais rapidamente do que aulas em turmas; além disso, espera-se que o resultado também se manifeste mais rapidamente... enfim, a cobrança é maior, para mim.
Em contrapartida, não tenho as amarras do "livro da escola". Gosto da idéia de experimentar todas as mídias, tecnologias e individualidades na hora de estudar qualquer assunto. Gosto da idéia de fazer - ou tentar fazer - o aluno perceber que pode ser muito prazeroso decifrar um idioma que não lhe diz respeito e/ou oferece tantas dificuldades. Gosto, mais ainda, da concepção aristotélica da didática, em que as aulas não significam livros, dicionários e muitos exercícios repetitivos, podendo se resumir a passeios nos arredores da pólis:

E você achando que eu estava falando de práticas super contemporâneas.
Acima temos Aristóteles e Platão caminhando pela Escola de Atenas durante uma aula - clique aqui para ver os outros estudantes, a cantina e a quadra poliesportiva na pintura completa de Rafael Sanzio.
Ainda na página do Sanzio na Wikipedia há um link para esse mesmo quadro, mas devidamente legendado com os nomes de outros estudantes ilustres e personagens curiosas da época.
Então, querido aluno, prepare-se para caminhar.