quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Viagem forte



Minha avó morreu ontem, minha nona querida e doce. Hoje tivemos aquela coisa horrorosa chamada funeral; tudo acaba, tudo pára e eu ainda tenho tantas pessoas para ver partir nessa vida... mas simplesmente não faz a menor diferença o fato de eu torcer para não ver qualquer uma delas morta. Amar dói e quase destrói, já sabemos.

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Eu sempre tive planos para mim e para ela, mas nunca pus nada em prática. Convivemos pouco, acho injusto ter passado tanto tempo com meus avós maternos e quase nenhum com ela. Mesmo assim, a intensidade de cada lembrança dela vem agora à minha mente, me impedindo de esquecer o mundo imenso que ela continha e ao qual tive acesso. Eu me concentro em sua fisionomia serena de quem agora descansa, mas só consigo lamentar pela avó carinhosa que adorava dar presentes, que comemorava cada conquista minha, receptiva em todas as vezes que nos víamos. Pelos bolinhos mais maravilhosos que alguém já fez, pela maionese com azeitona, pela toalha de frutinhas coloridas. Pela nona que cozinhava, bordava, costurava, tricotava, limpava, plantava. Pelo salame dentro da gaveta, pelo amor quase desesperado com que segurava minha mão e pela dedicação.
Acima de tudo, lamento pela saudade que já sinto ao pensar em cada fato que a definia. Penso em minha avó de humor negro e todo peculiar. Penso na moça que precisou fugir para se casar com meu avô, que trocou a Itália pelo Brasil sem ter nada além de um marido amoroso, duas crianças e muita garra. Penso na mulher que passou toda sua vida tentando entender e perdoar o pai que a abandonou na infância. Penso nas mágoas, rabugentices e sentimentos que ela nunca procurou esconder, elementos de uma natureza de que não posso mais desfrutar.

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Giacomina Trimarchi Ferraro, eu vou te amar para sempre. Me perdoe por não conseguir ser nada daquilo que você foi.

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