domingo, 1 de junho de 2008

Vida (in)útil da diversão

Ontem à noite eu saí. Fazia muito tempo que não ia a uma balada e confesso que não sentia muita falta, mas estou empreendendo esforços para me animar um pouco mais.
Conversa, música, amigas, bebidas, dança; tudo bacana até lá pelo meio da noite - depois disso, tive um momento de lucidez que sempre me tira de onde estou e me bota pra ver as coisas de fora. Comecei a desconfiar de tudo, do lugar, da banda, das pessoas e me ocupei em observar a situação, da lateral do palco (espaço em que ainda dá para curtir, mas sugere que você está mais sossegado do que o pessoal do gargarejo e que ainda pode fugir).
Consegui identificar duas pessoas genuinamente felizes - ou que pelo menos me convenceram de que estavam felizes. As outras, incluindo eu, pareciam falsas como as peles que estávamos usando nos casacos; algumas tentavam rebolar mais do que as vizinhas, outras empunhavam suas garrafinhas de vodca e eu não consigo - e nem quero - ser assim.
Um casal já antigo mostra a garota pedindo um beijo ao namorado, que lhe dá um selinho. Um casal que se formou naquela noite não tem nada para dizer ou qualquer pedido pra fazer, só precisa manter o ritmo apaixonado dos beijos famintos.
Eu tento descobrir em qual ponto eu desci nessa história toda, porque eu não me sinto à vontade nem para olhar as pessoas de frente nessas festas, para não dar qualquer motivo... é como se o tempo todo eu fosse ouvir "veio aqui fazer o quê, então?" e eu me imagino uma charlatã.
Não é aquele som, não é aquela dança, não é aquela conversa, não são aqueles caras que vão contagiar minha vida e nublar todo o resto.
Pode parecer superficial dizer isso sem ter sequer conversado direito com aquelas pessoas, mas há coisas que eu simplesmente sei, só de observá-las por alguns segundos, assim como sei o que quero, quando incentivo alguém a se aproximar de mim.

domingo, 25 de maio de 2008

Lento despertar

23/05/2008 Índios liberam funcionários da Funai em SP
Três funcionários da Funai (Fundação Nacional do Índio) que eram mantidos reféns por índios em uma em uma aldeia de Avaí desde terça-feira foram liberados na noite desta quinta-feira (22).

21/05/2008 Índios mantêm funcionários da Funai reféns em aldeia em Avaí

19/05/2008 Procuradoria apura confronto entre índios e Exército em Roraima

14/05/2008 Índio joga água em deputado durante audiência na Câmara:
"Eu peguei um copo de água porque não tinha uma flecha. Se eu tivesse, metia uma flechada nele", ameaçou.

Fonte: notícias esparsas do http://www.folha.com.br

Vivaaa, ainda há seiva nos primeiros habitantes da Terra Brasilis! Monges rebeldes no Tibet no começo do ano, agora nossos índios nobres e valorosos... 'téquenfim, velhos punks.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

3 tempos

Parece que maio foi um tanto caótico para o Laerte, considerando as tirinhas diárias que ele publica na Folha. Algumas delas atingiram uma complexidade de forma e de conteúdo que superam, em muito, a proposta do restante dos quadrinhos do jornal. Escolhi três momentos em que a tirinha dá a impressão de querer se aventurar por mares nunca dantes navegados:

1) Momento poético


Um quadro só, sem diálogos; ao invés disso, um desenho com foco único, que parece apenas ilustrar o poeminha urbano rimado, que se dá ao luxo de misturar um neologismo que podia ter saído do português de Portugal ("pisca-piscaram") com gíria paulista ("é nós!").

2) Momento filosófico


Simples. Imagens repetidas quase que identicamente. Física e tirinha auto-explicativa, que adora dizer "quem manda aqui sou eu".

3) Momento enxurrada


Mais repetição de imagens com variações mínimas, numa tirinha que extrapola e se extende por 6 quadrinhos; um balão que diz tudo e uma imagem final que atribui sentido sem precisar da adição de qualquer palavra. E olhos bem abertos.

terça-feira, 13 de maio de 2008

De livros e carneirinhos

Aproveitei a insônia desta madrugada para ler Alta Fidelidade pela terceira ou quarta vez, já nem sei mais.
A coisa tá feia pro meu lado, meus ataques de ansiedade, velhos conhecidos, agora me visitam todos os dias. Não consigo dormir e não consigo comer, o que me faz ficar ainda mais magra do que já sou; minha pele está horrorosa, as olheiras idem.

Por que Alta Fidelidade novamente, quando tenho uma pilha ameaçadora de leituras não iniciadas? Pelo teor da leitura, creio; qualidade é mais importante que quantidade, etc, mas acima de tudo, é uma voz masculina conduzindo um narrador masculino totalmente comum e confidente, que não está tentando dizer quais pessoas você encontra no inferno, ou como casais inteligentes enriquecem juntos.
Eu sinto falta dessa franqueza, tanto de autor quanto de personagem, na literatura "masculina". A literatura escrita por mulheres já não faz mais efeito sobre mim; até leio, acho algumas obras recentes realmente boas, eu jamais conseguiria fazer igual, mas parece que já não tenho mais um interesse genuíno na visão feminina das coisas e das pessoas.

"Sei que estou sendo idiota, mas não quero que ela venha à minha loja. Se ela viesse à loja, eu talvez começasse a gostar realmente dela, e aí eu iria ficar esperando que ela viesse o tempo todo, e aí quando ela viesse de verdade eu ficaria nervoso e idiota, e provavelmente acabaria convidando-a para um drinque de maneira desajeitada e obscura, e ela ou não perceberia o meu intento, e eu me sentiria um imbecil, ou recusaria de cara, e eu me sentiria um imbecil. E, no caminho para casa, depois do show, já começo a me perguntar se ela virá amanhã, e, no caso de ela vir, se isso significará alguma coisa, e se significar, então para qual de nós isso significará alguma coisa, embora Barry provavelmente não tenha chances.
Puta que pariu. Odeio esse troço todo. A que idade a gente tem que chegar para que isso pare?"
Alta Fidelidade, Nick Hornby, tradução Paulo Reis, editora Rocco, p.61.

domingo, 11 de maio de 2008

Degradações recém-nascidas

O Bispo Gianfranco Girotti, diretor do corpo de indulgências do Vaticano, achou que os tempos atuais pediam uma atualização dos sete pecados capitais (vamos lá, foi um filme bacana com o Brad Pitt - orgulho, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça).
Pra mim, estes sete representantes secos já envolviam todos os vícios que os pobres mortais acabam adquirindo, sendo, portanto, mais do que suficientes; entretanto, essa atualização faz algum sentido se pensarmos que o orgulho, hoje em dia, se confunde com auto-estima, qualidade que todo psicólogo recomenda exercitar; gula se transformou em refinamento gourmet e preguiça em ócio criativo, relaxamento, qualidade de vida.
Os sete novos pecados capitais que o Bispo elegeu foram:
1. Abuso de drogas;
2. Experiências moralmente duvidosas;
3. Poluição ambiental;
4. Promoção da pobreza;
5. Desigualdade e injustiça social;
6. Manipulação genética;
7. Acúmulo excessivo de bens materiais.
Uma relação bem específica, não é? Mas gostei da idéia de que promover a pobreza e cometer crimes ambientais sejam consideradas ações tão pecaminosas quanto adultério ou eutanásia.
A Igreja chama estes pecados de Capitais (derivado de cabeça, assim como em "renda per capita"), ou seja, pecados que desencadeiam/encabeçam outros pecados (e não porque ocorrem em todas as cidades-capitais do mundo :-D)
Por isso, eu vejo o acúmulo de bens como avareza, simplesmente. Dessa forma, a lista nova parece um tanto desnecessária, fazendo uso de outras palavras pra falar das coisas de sempre.

Depois de ler eu também quis pensar em uma lista de pecados que eu considero capitais, mas, pelas mesmas razões, não ficou lá grande coisa:
1. Inveja (sempre);
2. Preguiça (sempre);
3. Omissão - ficar em cima do muro, ou sair de cena quando você poderia ajudar, para não se comprometer. Mas isso não entra em Preguiça?
4. Egoísmo - desde não dividir as coisas boas que recebe até não saber viver em sociedade. Não deixa de ser Avareza, contudo.

Nas minhas três últimas chances eu consegui ficar mais específica:
5. Menosprezar as emoções dos outros - sim, sentimento é coisa muito séria, grandes tragédias poderiam ser evitadas se as pessoas olhassem para si mesmas com honestidade não fizessem pouco caso do afeto alheio.
6. Intolerância, gente que não cede, seja na família ou na diplomacia internacional; claro que não é gostoso de fazer.
7. Cabeça fechada, também conhecida como ignorância, cuja principal vítima é o próprio pecador, no caso. Se estiver fechado para as novas formas de arte e de comunicação e trabalhar com mídia, merece o terceiro círculo do inferno de cara.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Desventuras em série

"O Lago dos Cisnes" é provavelmente o balé mais conhecido no mundo todo e, conseqüentemente, o mais satirizado e adaptado. Fracassou na estréia e foi em uma segunda montagem, de 1895, que começou a ter aceitação do público, que agora contava com uma das músicas mais dramáticas de Tchaikovsky para conduzir o bailado.
Pois bem, como em toda boa história, temos um príncipe, Siegfried, que está sofrendo muita pressão de sua sociedade, porque já está na hora de ele se casar. E o moço decididamente não tá a fim, ele é muito feliz em sua solteirice e, além disso, não vê a menor graça nas pretês que lhe apresentam - quer mais é sair logo da festa que sua mãe planejou e procurar uma balada com seus amigos, munido de seu novo celular... digo, sua nova balestra, para caçar umas cisnezinhas apetitosas que passaram em frente ao palácio no começo da noite.



Ao longo da noite, Siegfried conhece Odette; os dois dançam, conversam e o príncipe revela que está apaixonado, pedindo para vê-la no dia seguinte. Odette diz que um feiticeiro a mantém aprisionada (aqui você pode imaginar que o feiticeiro representa a superproteção do pai, ou da mãe) e que o feitiço só se quebra quando um jovem de coração puro lhe prometer amor eterno (aqui você pode ouví-la dizer "eu sou pra casar"). E o príncipe promete, enquanto Odette avisa que, até que consiga encontrá-lo na noite seguinte, sua família tentará destruir o plano.
Como é de se esperar, tudo sai errado na noite seguinte: Siegfried, embriagado de ansiedade e de outros feitiços, confunde Odette com Odilla e, então, anuncia seu casamento com a recém-chegada; quando percebe o engano, tenta repará-lo. Odette o perdoa, mas pensa que não há mais futuro para os dois: a pureza se esgotou e a confiança foi diluída.
Se você que está lendo é homem e está se sentindo ofendido com essa postagem, relaxe, não sou feminista e não estou acusando o gênero masculino em especial - inclusive, "O lago dos cisnes" teve esta montagem, em 1995, na qual todos os cisnes são homens, ou seja, qualquer parcialidade foi lindamente redimida para deixar claro que vocês dividem, com as mulheres, sua parcela de desventuras amorosas.



Balés românticos raramente têm final feliz, talvez por isso eu goste tanto deles - você não vai sair do espetáculo achando que só a sua vida amorosa é frustrante, mal resolvida ou atrapalhada. O que eu não entendo é como alguém pode dizer que "O lago dos cisnes" é velharia, enquanto ele vem se repetindo todos os finais de semana, ininterruptamente.

Palavra final, aos cisnes errantes do mundo todo: não insistam em acreditar nas conversas de baladas.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Infância eterna


"Sou obrigado a dizer que as cartas estão mal embaralhadas até conseguir uma boa mão".

Frase de Jonathan Swift, o mesmo autor de Viagens de Gulliver, um livrinho milagroso e que você lê em poucas horas. É só tomar cuidado pra não escolher uma das inúmeras edições adaptadas para o público juvenil (mas escolha uma com ilustrações) e... divirta-se.
Se precisa de mais incentivo, ou se quer ler no computador (em inglês), esta página faz um panorama do autor e da obra - ou seja, pode te convencer a ler o livro ou te fazer desistir de vez :-)
Porém, não se atenha ao website, o livro é ótimo, um dos meus "10 mais"; o estranho é pensar que o Swift escreveu Viagens de Gulliver para o leitor adulto. Ao longo dos tempos, ele se tornou um clássico da literatura infantil e juvenil, mas é simplesmente um tratado muito bem escrito (e subestimado) da sociedade humana explicada para crianças de todas as idades.