sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Filosofia fundamental

A Boston Review do último mês publicou um artigo de um filósofo canadense sobre o ensino de filosofia a alunos do nível fundamental no Brasil. Gosto muito de ler artigos estrangeiros que têm o Brasil como assunto. Divulgaram o texto em chamadas elogiosas, dizendo que no Brasil todo aluno estuda filosofia - Platão, ética e os desígnios divinos, o que muitos consideraram impressionante. O autor na verdade quer mostrar que os filósofos acadêmicos não acham isso nada impressionante e sequer útil. A lei de 2008 alega que o ensino de filosofia é especialmente necessário para o "exercício da cidadania" (link para a LDB nacional). Para os acadêmicos, isso não passa de uma disciplina escolar e não envolve uma prática democrática ou emancipatória.
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Os professores entrevistados pelo canadense, entretanto, defendem sua missão: "Imagine o que meus alunos da noite - taxistas, faxineiras, pedreiros - diriam se eu pedisse para eles estudarem a Crítica da Razão Pura, de Kant. Se os alunos não puderem relacionar o que eles estudam com suas próprias experiências, qual será a utilidade?"
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"Porém, há inúmeras experiências vivenciadas pelos alunos que poderiam ser abordadas em uma aula de filosofia. Considerem o mito da igualdade racial no Brasil, a ideia de que o Brasil é uma 'democracia racial'. Seguindo o ideal Socrático da busca pelo auto-conhecimento, João Belmiro pede que seus alunos esbocem sua biografia e árvore genealógica. 'Eles sempre sabem muito mais sobre a parte branca de sua família do que sobre a parte negra'. Um colega branco me disse que sua esposa não vai à praia com ele, porque acha que as pessoas vão pensar que ela é uma prostituta saindo com um gringo. Outro colega branco hesita em levar sua mulher para conhecer os pais dele: 'Eles são pobres e sem estudo; ela tem mestrado em História e é diretora de um arquivo de manuscritos raros do período colonial'. Em um país onde as raças se misturam tão intensamente, por que a cor da pele ainda se faz tão presente?" 
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Mas o mais legal é ver o exemplo de discussão que esse filósofo canadense coletou durante a pesquisa que fez em algumas aulas de filosofia para ensino fundamental em colégios de Salvador:

Antes, os alunos me fizeram mais perguntas. "É verdade que o bacon canadense é o melhor do mundo? O que os estrangeiros pensam do Brasil? Como você se interessou por filosofia?" E, de modo ainda mais pessoal, "você acredita em Deus?". Eu tentei sair dessa usando o Deus impessoal de Spinoza, o que não significou nada pros alunos e, pra falar a verdade, eu não acredito nem mesmo no Deus do Spinoza. "Ahá, a gente já sabia, todos os filósofos são ateus!" (...) Contei a eles que até o século XIX quase nenhum filósofo era ateu. Iniciamos uma discussão ativa tomando o Euthyphro, do Platão, cujo argumento é a relação entre Ética e a vontade dos deuses.
Perguntei:  “As normas morais dependem da vontade de Deus? É justo matar uma criança inocente se Deus pedir para fazermos isso?" Os alunos se revoltaram com a ideia. 
“Mas Deus não pediu para Abraão sacrificar Isaac?" Perguntei novamente. Houve um momento de confusão.
“Mas Abraão atribuiu a responsabilidade a Deus que ele quis destruir Sodoma e Gomorra", respondeu um aluno. Admiti que isso poderia ser visto como uma norma independente de fazer justiça. E pressionei mais:
“Mas se submetermos Deus a normas morais objetivas, pra quê precisamos da bíblia como guia moral?"
Outro aluno questiona se a razão pode substituir a bíblia: "a razão justifica o assassinato de uma criança inocente, se é a única maneira de salvar outras mil vidas".
Assumimos, por um momento, que a razão não detém normas morais absolutas. "Mas como podemos nos fiar na autoridade da bíblia se ela mesma sofre tantas interpretações? " Perguntei. Um terceiro aluno interferiu: "E se cada interpretação for correta em seu tempo e espaço?". Lembrei a eles do Museu de Arte Moderna de Salvador, que eles visitaram em uma excursão da escola. Fica em uma linda Casa Grande restaurada, com sua Senzala adjacente. "Vocês se lembram que lá tinha uma capela? Ir à missa e ter escravos não era uma contradição naquela época". A maioria dos alunos tem escravos entre seus ancestrais. Por isso, eles relutaram em considerar válida uma interpretação da bíblia que permita a escravidão. "Então, será que a razão é o arbítrio entre as interpretações conflitantes?"
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Isso tudo acontecendo agora, em Salvador. Desnecessário dizer que não acho filosofia inútil, qualquer que seja sua profissão ou suas ambições de vida.  Não sei se ajuda tão diretamente no exercício da cidadania, como prega a lei, mas ajuda a estudar qualquer outra disciplina escolar, as maneiras de ver seu trabalho e a condição humana. É a centelha que torna qualquer pessoa apta a refletir e se posicionar em qualquer assunto. Pra mim é notável ver a educação nacional oferecendo livre pensar desde cedo nos colégios.